4 de abril de 2019

Conversas lá de casa #23

- Mamã, não tenho mais aulas!
- O quê? Mas as aulas só acabam na sexta feira!
- Mas quinta tenho torneio de futebol e sexta visita de estudo, por isso não tenho mais aulas no segundo período!

E assim se acaba um segundo período dois dias mais cedo!

Lua Nova em Carneiro - Tempo de Inicios e Concretizações


Hoje partilho aqui um texto da minha amiga Sofia Amaral, do Serviço de Mudanças. Astrologia ao serviço da Mudança.

As coisas que esta miúda escreve parecem que fazem eco da minha minha vida.
Tantos projectos que tenho a fervilhar. Tantas pedras no cominho que tenho vindo a contornar. Tantas dificuldades a ser ultrapassadas. Cada passo tem trazido mais dificuldades.

Tenho agora, temos todos, o alinhamento planetário para concretizar os nossos projectos. A Lua Nova que trás a mudança, o início de novos ciclos, em Carneiro, signo de fogo e das concretizações.

Vamos lá aproveitar?


"5 de abril
#luanovacarneiro

Lá vem ela com as luas. Anda tudo louco com a lua nova em carneiro, abre-se as redes sociais e não se fala de outra coisa. Eu sei. 
E acredita que eu também estou a torcer. A confiar. A acreditar que é desta.
Pois que seja.

Já vem tarde diz Carneiro. 
Vem na altura certa, diz Capricórnio.

Eu sei que parece que já andas a ouvir isto há muito tempo e que sentes que as coisas nunca mais mudam.
Mas Será que não? Olha para trás, para 6 meses atrás, e repara bem na energia da tua vida, e como de "repente" a urgência, a impaciência, a impulsividade é algo que se sente no ar.

Repara como te sentes mais original e criativ@. Como se de repente uma ideia, que estava apenas no papel, está prestes a concretizar-se. carneiro é agora ou nunca. Não é para amanhã.

E esta lua em carneiro ( junta ao sol)_importante perceber o grau 15o de carneiro no teu mapa_ liberta um poder criativo igual a uma semente que plantaste há tempos, e que parecia que nunca mais, mas que agora se transforma numa linda flor.
(Ou num cacto com picos, que cada qual sabe o que plantou).

Resolve as cenas com a tua família (mãe incluída, vá lá, já tens idade para isso) manda passear quem já não te acrescenta, larga o trabalho que já não suportas, não faças mais fretes. Já chega! Não?
Acima de tudo, FICA BEM! 
Faz as pazes contigo.

Assume esse compromisso.

Vai atrás daquilo que queres. Vai atrás de ti. 
Só não vás atrás/ a trás de ninguém, de quem não te quer ao lado.

Deixa de adiar. A felicidade, a vida. Os filhos. O teu sonho. Viaja. Escreve. Canta. Pinta. Ama. Assume, decide. Abraça. Diz o que te vai na alma. Mas por favor não deixes para amanhã.

A vida é muito curta. E ninguém sabe em que lugar da fila está para se ir embora.

Dia 5/4/2019 a partir das 8h30 da manhã, hora de Lisboa, tens 8h para escrever, pensar, afirmar, assumir a tua vida, como gostarias que fosse a tua estória daqui para a frente, o teu sonho."


26 de março de 2019

CTT Terminam ação de recolha de roupa para Moçambique


Depois de anunciarem uma mega ação de recolha de roupa  para envio para as vítimas do furação Idai em Moçambique, a decorrer de 25 de março a 8 de abril, os CTT anunciam terem esgotado as 200.000 embalagens previstas e dão por terminada a campanha.

As reações dos portugueses nas redes sociais não se fizeram esperar, acusando os CTT de apenas montarem uma campanha de marketing, sem o intuito de ajudar quem mais precisa.

Quem conseguiu uma das 200,000 embalagens solidarias poderá entregar nas estações dos CTT até 8 de abril.

Todos os outros portugueses terão de procurar outros locais de entrega como a Cruz Vermelha Portuguesa. No entanto esta instituição apenas aceita artigos novos. Consultar aqui os artigos que podem ser entregues na Cruz Vermelha Portuguesa.

8 de janeiro de 2019

Rui Pedro desaparecido há 20 anos

Rui Pedro, aos 11 anos

Foi preciso a Cristina Ferreira lançar um novo programa nas manhãs da televisão portuguesa para se voltar a falar do menino desaparecido em Lousada. No dia 4 de março de 1998. Há 20 anos.

Voltamos a ver a mãe, Filomena Teixeira, e a imensa que dor transporta a cada minuto do dia.

Os anos passam e vamos esquecendo. Esquecendo que menores desaparecem, sem deixar rasto. Mas a mãe não esquece, por um minuto que seja. Corre o mundo à procura do filho. Contrata detectives quando sente que as autoridades não dão as respostas que precisa.

A dor no coração desta mãe é imensurável. Não come, quase não dorme, mesmo com a ajuda de medicação. Espera a cada momento que o filho lhe apareça à porta. Está preparada para o receber de braços abertos. Cuida da sua aparência. Bem penteada, maquilhada, cuidadosamente vestida. Faz parte da sua capa, explica. Tem de se mimar a si mesma.

Este é um relato impressionante. Pode passar o tempo que passar, que esta dor não amaina. A dor de não saber o que aconteceu a um filho.

Eu não consigo nem imaginar viver uma situação destas.



7 de junho de 2018

Junho ou Janeiro?


Não entendo. O meu cérebro não consegue processar esta informação. Frio, chuva, humidade, céu negro...

Estamos em Junho ou em Janeiro?

Estamos prestes a acabar a primavera e começar o verão, ou a meio do inverno?

Seguramente a meio, quem me dera que no fim, de um longo inverno. Um dos mais longos que assisti nas mais de 40 décadas com que a vida me presenteou.

Já usei roupa de verão. Já ganhei bronzeado na cara e braços, com a permanência ao ar livre nuns fins de semana solarengos, de há quase um mês...

Voltei a ir buscar as camisolas de malha, os sobretudos, os pijamas de inverno.

Os miúdos estão prestes a acabar as aulas. Falta apenas uma semana! Vão ficar fechados em casa? Abrigados da chuva? Não faz sentido!

O meu cérebro não consegue assimilar esta dualidade de sensações. Os dias longos de primavera, com o céu cinzento e o frio.

Olho para a lareira que me pisca o olho. Contenho-me. Recuso-me a abraçar o inverno a poucos dias do inicio oficial do verão. Depois de uma primavera com falta de comparência.




7 de fevereiro de 2018

A primavera está a chegar


A primavera está a chegar.
O frio e o vento que nos fazem enregelar até aos ossos podem fazer-nos esquecer. Mas ela está aí. À espreita.

Esta manhã percebemos. Sentei-me, como de costume, com os meus filhos a tomar o pequeno almoço na mesa da sala.

Torradas, queijo, iogurtes, chá. Cada um com os seus gostos particulares. Uma que não gosta de (quase) nada.

E a acompanhar-nos, a luz solar!
Ao contrário do que fazíamos até aqui, subimos estores, desligámos a luz elétrica. Lá fora, em vez de um céu escuro recebemos a luz solar! Soube mesmo bem, tomar o pequeno almoço com luz do dia!

Um (ainda pequeno) sinal de que a primavera está a chegar. Devagarinho, timidamente, mas a caminho. E é tão bom!


15 de novembro de 2017

Livro Pai, ensinas-me a poupar?

Se ensinarmos aos nossos filhos a poupança eles serão no futuro adultos financeiramente mais equilibrados. Noções como desperdício e poupança podem ser bastante úteis às crianças desde muito cedo.


Pai, ensinas-me a poupar? Um livro que ensina aos mais pequenos a arte da poupança

Pai, porque é que o dinheiro se chama dinheiro? Uma pergunta inesperada, de filha para pai, que abre portas ao mundo de Paulo Jorge Silveira Ferreira e Sílvia Alambert. Um livro solidário que conta uma história bem diferente, pelos porquês da pequena Ana Raquel e com uma ajuda extra e interativa da aplicação, para smatphones, “Primeira Poupança”.

Era uma vez um pai preocupado, que queria ensinar conceitos de educação financeira à sua filha mais nova. Era uma vez um livro que chegou às livrarias de todo o país e ao planeta cibernético www.reidoslivros.pt, pronto para ser contado.

Esta é uma incrível visão que ensina e diverte as crianças de hoje, adultos de amanhã, sobre ideias que de outra forma poderiam não entender. Paulo Ferreira acredita que "Se ensinarmos as crianças a poupar, teremos um mundo verdadeiramente diferente. Muitas das decisões que vão ter de fazer, partem de noções tão importantes como o desperdício ou a poupança, que podem ser descomplicadas”. Eles estão mais preparados do que possa pensar. "Não se iniba de falar com os seus filhos sobre estes assuntos. Seja um exemplo para ele.”

Este professor e pai, dá-lhe uma nova forma de transmitir ao seu filho, o porquê de sair de casa todos os dias para trabalhar. E, para tornar tudo mais divertido, terá a seu dispor uma aplicação: Primeira Poupança, feita para acompanhar e incentivar a leitura, com a conquista de “moedas” virtuais que podem ser usadas para comprar uma lista de desejos, tal como no mundo real.

O autor conversa com a sua filha, aluna na escola primária, a quem responde a algumas questões: o que é o dinheiro, para que serve, receitas e despesas, orçamento, direitos, deveres do consumidor. Convidando todas as gerações a aprender, voando além-fronteiras, por via da sua co-autora, Silvia Alambert, educadora financeira no Brasil.

E, como esta é uma obra solidária, por cada livro que comprar, estará a contribuir com 1,5€, para duas instituições que moveram as vidas de Paulo e Sílvia. Em Portugal, para a equipa local de intervenção nº1 de Évora/Cercidiana. No Brasil, direcionado para a Associação Cruz Verde, uma entidade de referência em paralisia cerebral grave, escolhida por Sílvia Alambert.

Disponível nas livrarias e aqui.

20 de outubro de 2017

Incêndios: Entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles


Gonçalo Ribeiro Telles: Esta entrevista tem 14 anos mas podia ter sido dada hoje


Nos primeiros 15 dias de agosto de 2003 arderam cerca de 300 mil hectares no nosso País. Os fortes incêndios de Oleiros, Sertã e Aljezur fizeram as manchetes dos jornais (e da VISÃO) e os temas são sempre os mesmos: a floresta de eucaliptos e pinheiros, as falhas da proteção civil, a falta de condições de trabalho dos nossos bombeiros. Passaram 14 anos e continuamos a falar do mesmo. Por isso esta entrevista que, na altura, fizemos a Gonçalo Ribeiro Telles, arquitecto paisagista e “pai” do ecologismo português, não perdeu um pingo de atualidade. Vale a pena voltar a ler as suas palavras e perceber como nada aprendemos com a História, nenhuma lição retiramos dos nossos erros, continuando ano após ano na permissividade da celebração do eucaliptal.

VISÃO: Quais são as causas desta calamidade?

GONÇALO RIBEIRO TELLES: A grande causa é um mau ordenamento do território, ou seja, a florestação extensiva com pinheiros e eucaliptos, de madeira para as celuloses e para a construção civil. O problema foi uma má ideia para o País, a de que Portugal é um país florestal. Lançou-se a ideia de que, tirando 12% de solos férteis, tudo o resto só tem possibilidades económicas em termos de povoamentos florestais industriais.

V: De onde vem essa ideia?

GRT: É uma ideia antiga que começou nos anos 30 com a destruição, também por uma floresta extensiva, das comunidades de montanha do Norte de Portugal, que tinham a sua economia baseada na pecuária. As dificuldades por que passava a agricultura deram origem a que se quisesse transformar grandes áreas do País, já são 36%, em florestas industriais. Esta campanha transformou a silvicultura, que era a profissão básica, numa profissão de florestal, para dar resposta aos grandes interesses económicos. Houve ainda outra campanha, a do trigo, em que se organizou o País em função desta cultura, que tinha por base o mito da independência de Portugal em pão. Além das terras para o trigo, tudo o resto, num sistema de agricultura economicista, tem que ser floresta, produção de madeira. O resultado está à vista.

V: Passámos então a ser um País florestal.

GRT: Os romanos dividiam o território em três áreas, além da urbe: o ager, que era o campo cultivado intensamente; o saltus, a pastagem, a agricultura menos intensiva; e a silva, a mata de produção de madeira e de protecção. Todo esse ordenamento foi transformado, acabou-se com a silvicultura e começou o culto da floresta, que não temos. Se formos ao campo perguntar onde fica a floresta, eles só conhecem a do Capuchinho Vermelho, porque o que têm na sua terra são matas, matos, etc. No século XIX, o pinheiro bravo veio para responder às necessidades do caminho-de-ferro que estava em lançamento. Mais tarde é que vem a resina, a indústria da madeira e a celulose. O pior é que se transformou o País num território despovoado e que, dadas as características mediterrânicas, arde com as trovoadas secas.


V: Como deve ser reordenado o território?

GRT: O País está completamente desordenado. Por um lado, uma política agrícola que não considera o mosaico mediterrânico, com agricultura, pecuária, regadio e horticultura, os matos, as matas, todo um mosaico interligado e ordenado. Em Mação, por exemplo, aquela população vivia tradicionalmente da agricultura que fazia nos vales e nas naves.

E na serra existiam os matos pastados pelas cabras, pelos bovinos. Dos matos retirava-se o mel, a aguardente de medronho, a caça e as aromáticas.
A França, nas zonas de mato, tem uma política de aromáticas de abastecimento da indústria de perfumes. A questão, hoje, é criar uma mata que produza madeira, mas que se integre nos agro-sistemas, uma paisagem sustentada, polivalente e nunca repetir, como já querem, a plantação de eucaliptos e de pinhal. As populações estão fartas disso e devem ser chamadas a depor. E tem que haver duas intenções ecológicas fundamentais: a circulação da água e a circulação de matéria orgânica, aproveitando-a para melhorar as capacidades de retenção da água do solo.

V: A excessiva divisão do território (em meio milhão de proprietários) dificulta as limpezas florestais?

GRT: A limpeza da floresta é um mito. O que se limpa na floresta, a matéria orgânica? E o que se faz à matéria orgânica, deita-se fora, queima-se? Dantes era com essa matéria que se ia mantendo a agricultura em boas condições e melhorando a qualidade dos solos. E, ao mesmo tempo, era mantida a quantidade suficiente na mata para que houvesse uma maior capacidade de retenção da água.

Com a limpeza exaustiva transformámos a mata num espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata, portanto mais seco fica o ambiente.

V: Se as matas estivessem bem limpas ardiam na mesma?

GRT: Ardiam na mesma e a capacidade de retenção da água não se dava, passava a haver um sistema torrencial. A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola. Mas esta floresta monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais nada senão para arder. Aquela floresta vive para não ter gente. Se houvesse lá mais gente aquilo não ardia assim.

V: Defende uma mata com que tipo de madeiras?

GRT: Madeiras para celulose é difícil porque temos agora uma forte concorrência no resto do mundo. Os eucaliptais, para serem mais rentáveis, só poderiam sê-lo no Minho que é onde chove mais de 800 ml ao ano. O eucalipto precisa de muita água e Portugal não pode concorrer com o Brasil e a África em termos de custo. Só se transformarmos o Minho num eucaliptal. Pode-se optar pelas madeiras de qualidade da cultura mediterrânica como todos os carvalhos, o sobreiro, a azinheira e pinhais criteriosamente distribuídos.

V: Não são tão rentáveis...

GRT: O carvalho, por exemplo, acompanha toda uma panóplia de rendimento como a cortiça, a pecuária, a produção do mel, das aromáticas, a caça.

V: Há uma visão limitada do que pode ser rentável na floresta?

GRT: É muito bom para as celuloses e muito mau para as populações e para o País, que está devastado. O mundo rural foi considerado obsoleto, como qualquer coisa que vai desaparecer. Veja-se o disparate que foi a política de diminuição dos activos na agricultura. Contribuiu para o aumento dos subúrbios, dos bairros de lata, da emigração. Trouxe alguma coisa melhor para a província? Não. Apenas um grande negócio para as celuloses e para os madeireiros.

V: As populações estão alertadas para essa multiplicidade de culturas?

GRT: Completamente alertadas; quem parece que não está são os políticos e os técnicos. Porque se perderam numa floresta de «números». Quem conhece as estatísticas diz que somos o terceiro país da Europa em número absoluto de tractores, só ultrapassados pela Alemanha e pela França. Somos um país de tractores porque os subsídios dão para isso, porque interessa à importação dessa maquinaria toda. As pessoas foram levadas a investimentos, em nome do progresso, que não tinham qualquer racionalidade.

V: No caso de se aumentarem as áreas agrícolas, temos agricultores para tratar delas?

GRT: Temos. Estão desviados, foram convencidos de que eram uns labregos. Houve toda uma política de desprestígio do mundo rural tendo por base a ideia de que era inferior ao mundo urbano. Despovoámos os campos e essa gente toda veio para a cidade. Hoje, enfrenta o desemprego. Esqueceram-se que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas, da urbana e da rural. Hoje, 30% das pessoas que praticam a agricultura económica na Europa não são agricultores. É gente que vive na cidade, tem lá o seu escritório e tem uma herdade no campo onde vai aos fins-de-semana. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem a agricultura senão morremos à fome.

V: Que pode fazer o Estado, uma vez que 84% da nossa floresta está nas mãos dos proprietários?

GRT: Pode fazer planos integrados de ordenamento da paisagem. O Estado não domina totalmente a expansão urbana quando quer, não faz planos gerais de urbanização? Não se devia poder plantar o que se quer porque também não se pode construir o que se quer. Constrói-se mal porque, às vezes, o Estado adormece. Faltam planos gerais de ordenamento de paisagem, que a actual legislação não contempla, apesar de já ter instituído a Estrutura Ecológica Municipal através do Decreto-Lei 380/99. A Lei de Bases do Ambiente tem os conceitos e os princípios para um plano de ordenamento de paisagem, está lá tudo escrito, mas nunca foram regulamentados.

V: A actual legislação favorece as monoculturas?

GRT: Favorece porque a chamada «modernização» da agricultura é um escândalo de incompetência. As universidades de Agronomia em Portugal tiveram um período de grande pujança intelectual no fim do século XIX e no princípio do século XX. Agora, parece terem-se rendido ao economicismo.


V: Deve o Estado apoiar com subsídios e benefícios fiscais?

GRT: Com certeza. O proprietário está com a corda na garganta, faz aquilo que lhe der dinheiro já para o ano. Por isso, têm que se estabelecer limites e normas a sistemas, não a culturas, mas sem tirar às pessoas a liberdade de correr riscos.

V: E promover o associativismo florestal, como em Espanha, por exemplo?

GRT: Abrimos um bom caminho com as «comunidades urbanas» que estão na forja, pequenas áreas metropolitanas de freguesias e aldeias, acho muito bem. Estamos numa cultura mediterrânica e não se pode traduzir o desenvolvimento em unidades economicistas de produção em grande volume de dois ou três produtos. É da polivalência, da multiplicidade de produtos e da harmonia da paisagem que resulta a possibilidade de ter uma população instalada em condições de dignidade.

Essas comunidades é que deverão fazer a síntese de todos os interesses. Porque quando começamos a destacar os interesses por sector, a visão sistémica desaparece e os interesses da comunidade passam para empresas que ultrapassam as suas fronteiras comprometendo a sustentabilidade da região.

Não defendo que haja um sector agrícola e um sector florestal, para mim é exactamente o mesmo: a agricultura completa a floresta e a floresta completa a agricultura.

V: O Partido Socialista voltou a falar da regionalização como forma mais eficaz de ordenar o território. Concorda?

GRT: Defendi uma regionalização há muito tempo, que deu origem a um documento de que os grandes partidos fizeram muita troça. Dividia o País em cerca de 30 regiões naturais, áreas de paisagem ordenada, que estavam já organizadas histórica e geograficamente.
São as terras de Basto, as terras de Santa Maria, as terras de Sousa, a Bord'água do Tejo, etc. O País é isso e não é outra coisa. Esta regionalização podia contribuir para a efectivação dos planos de ordenação da paisagem, com uma participação democrática das respectivas populações.

V: O Governo acordou tarde para a calamidade dos incêndios?

GRT: Que podia o Governo fazer? O mal vem de longe. Mas não estou seguro de que se vá enveredar agora pelo caminho certo. Já estão a dizer que querem reflorestar tudo como estava. Fico horrorizado quando ouço isso. Significa que querem voltar aos pinheiros e aos eucaliptos. Perguntem às vítimas dos incêndios que ficaram sem as casas se querem outra vez pinheiros à porta. Destruíram as hortas... Porque ardem as casas? Porque o pinheiro está no quintal.

V: Olhando para o futuro, os incêndios podem constituir uma oportunidade para se reorganizar o território?

GRT: Também o terramoto permitiu que o Manuel da Maia, a mando do Marquês de Pombal, fizesse a Baixa lisboeta. Não desejo um terramoto, mas não percam esta oportunidade. O futuro do País e da sua identidade cultural e independência está em causa.

Alexandra Correia
Jornalista

(Entrevista publicada na VISÃO 545, de 14 de Agosto de 2003)
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