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19 de dezembro de 2014

Margarida Gautier: Depressão

Margarida Gautier
Francisco Gautier despede-se da sua irmã Margarida com um texto que é ao mesmo tempo um apelo, a que todos estejamos atentos aos sintomas da depressão. Francisco pede-nos que levemos os nossos familiares e amigos ao médico psiquiatra, mesmo que tenhamos de obrigá-los. A depressão é uma doença que precisa de ser tratada, não um estado de espírito.


"Não estou ainda capaz de articular grandes frases, por isso vou escrever apenas o que me vai agora na alma. A minha mana Margarida foi das mulheres mais fortes que já conheci até hoje. Era inteligente, criativa, carinhosa, divertida, lutadora e muito, muito minha amiga. Tinha também amigos nos quatro cantos do mundo pois sempre foi uma pessoa de grande carisma e com uma alegria de viver incomparável. Nada foi alguma vez capaz de deter a minha irmã Margarida. Apesar de, com o seu coração bom, ter sido muitas vezes magoada injustamente pela vida, ao ponto de vir a sofrer de uma doença perigosíssima, talvez a doença mais perigosa dos tempos actuais, a depressão. A minha irmã lutou durante mais de vinte anos com esta doença, algo que ía e vinha sem qualquer controlo ou ante-visão. O certo é que durante muitos anos faltou informação no nosso país sobre o que realmente significa para alguém entrar em depressão. Depressão não é igual a estar deprimida. Depressão é uma doença grave e continua a somar casos e mais casos, todos eles idênticos aos da minha irmã. Hoje a minha querida irmã Margarida resolveu terminar com este sofrimento. Era já desumano e incapaz de ser suportado.
Pelo facto de estar a ser mal acompanhada a nível médico e por muitas vezes se auto-medicar, a Margarida entrou numa espiral confusa e vertiginosa, num enorme poço sem qualquer maneira possível de o voltar a escalar.
Este post não serve apenas para agradecer a todas as pessoas que já me enviaram importantes palavras de condolências, mas também como um Alerta a todas as pessoas que estão ou julgam estar em depressão. Procurem ajuda médica! E se a dos hospitais for escassa – invistam em vós, procurem um bom médico pois a sanidade mental não tem preço.
Se conhecem alguém assim, não dêem qualquer hipótese e levem-na pelo braço, se for preciso, sentar-se em frente a um bom médico psiquiatra. Sem tabus – mas com um imenso sentido de responsabilidade.
A minha irmã pediu ajuda muitas vezes. À família, aos amigos, aos médicos, aos psicólogos e até a desconhecidos. E nenhum de nós teve a força ou o know how suficiente para a conseguir ajudar.
A Depressão é uma doença terrível e já chega de virarmos a cara para o outro lado. Temos uma significativa percentagem de portugueses a viver neste momento em estados de depressão, sem que ninguém se aperceba. Muitos deles continuam a ter grandes responsabilidades e outros assumem até posições profissionais de grande destaque mediático, mas é muito difícil dar-se por isso. É, por isto, preciso redobrarmos a atenção de modo a ajudar quem está a precisar. E se for preciso, denunciem a situação a terceiros, a quartos, às pessoas que forem precisas para que se consiga obter o melhor tratamento médico para quem padece desta horripilante perturbação.
Não considero, como já algumas pessoas simpaticamente me disseram, que tenha sido um acto de coragem, ou como alguns outros, um acto de cobardia. Foi apenas um acto ditado por uma mente não sã. O estado em que a minha querida Margarida se encontrava tinha muito pouco de si própria. Grande parte dos seus actos, pensamentos, inseguranças, preocupações, etc, etc, tinham origem apenas e somente nesta doença.
Hoje, dia 16 de Dezembro de 2014, a Margarida ficou em paz. Acabou-se o sofrimento. Foi ter com os meus avós que já a esperavam há muito e está lá já a olhar por todos nós. Fotógrafa, criadora de cães, muito alegre e uma tia extremosa para as minhas filhas, são apenas alguns dos tributos das Margarida que nunca esquecerei."

Francisco Gautier

18 de dezembro de 2014

Margarida Gautier: Por mim, decidi, deixo-te ir

Marta Gautier
A escritora Marta Gautier publicou um texto de homenagem à sua prima fotógrafa, Margarida Gautier, que morreu a 16 de Dezembro de 2014.

"Atiravas o cabelo para trás, dizias 'agora não', 'isso nunca', 'achas??', ' é ESPETACULAR', dizias loucuras, coisas que ninguém diz, fazias rir com isso, rias, dizias tudo o que te vinha à cabeça, daquelas que eu critico, as que 'dizem tudo na cara', arranjavas confusão, discussões, brigas, tinhas medo, gritavas, gozavas, torcias-me os dedos pra trás quando eles ainda eram pequenos, dançavas, dançavas mesmo quando te achavas gorda. Adoravas fazer amor, contavas isso aos 4 ventos junto com todos os pormenores, 'foi espetacular quando ele fez assim', dizias 'não gosto de crianças. Irritam-me.', e alguns olhos em volta brilhavam pois nunca o confessariam e tu tinha-lo feito por eles. Eras os 2 lados, o bom e o mau na sua forma virgem. Eras o que todos somos, mas de forma crua, verde, 'estou aqui e sou assim.' Tão inteira que até assustava. Ninguém pode ser tão inteiro, tentávamos avisar-te. Mas foste. Foste feliz como um pássaro e infeliz como um cão pode ser. E hoje decidiste, inteira, que já chegava. E lá foste tu, desvairada, 'pauuuu', decidida, de top, para o céu ou lá o que é, dizeres o que tens a dizer e acabou-se!
Minha prima Margarida, do lado de pai e de mãe, como irmãs, que brigam, se descabelam, mas se sentem uma à outra a toda a hora. Já lavámos, ambas, o chão imundo da casa uma da outra em fases más. As retretes, as panelas secas de dias e dias. Chegávamos lá e 'toca a levantar minha menina, nada de dramas.' Esfregámos a casa uma da outra. Haverá coisa mais bonita? Foste ver-me no outro dia, quando eu falava a sério. No fim, esperaste-me e num tom pausado, pouco teu, disseste 'ah... toda a gente sofre...' E eu que pensei que soubesses... Linda, doida. Levas penas do meu coração. Ofereço-tas para as coçares no nariz de alguém que lá encontres, e rires com o cabelo atirado para atrás. Tu deixas-me, a partir de hoje, a convicção ainda mais convicta de que tenho de ser o que sou. 
Dou agora, neste momento, voltas e voltas na cama. Serei capaz de conciliar o sono? Quererei conciliá-lo? Tenho mesmo de o conciliar? Talvez comece por aqui. Por parar de querer que tudo seja como deveria ser. 
Por mim, decidi, deixo-te ir. Com a maior serenidade que conseguir. Com balões atrás de ti. Brancos, azuis, verdes, para ires rebentando até lá. Ou talvez os fotografes. Ou talvez mos atires à cara."

Marta Gautier
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