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25 de agosto de 2014

João Miguel Gouveia: a entrevista do Dux

João Miguel Gouveia
O Dux falou. A revista Sábado de 7 de Agosto publicou uma longa entrevista a João Miguel Gouveia.

Como já tinha dito sempre esperei que a tragédia do Meco não tivesse passado disso mesmo, de uma tragédia. Segundo o relato de João Miguel Gouveia foi isso mesmo.

Normalmente as explicações mais simples são as mais verdadeiras. Quando há uma explicação simples ela tende a ser mais verdadeira do que mirabolantes teoria da conspiração.

Compreendo a dor das famílias que perderam os seus filhos, pois também eu sou mãe. E não consigo nem imaginar o tamanho dessa dor. É para além do inimaginável!

Compreendo a repulsa, a revolta, que não se conformem com o sucedido. Mas a procura incessante de um culpado não posso aceitar. Um grupo de miúdos estão juntos num fim de semana, realizam actividades em conjunto e todos juntos sofrem um acidente. Infelizmente seis perdem a vida e um sobrevive. Fico triste pelo destino dos seis mas fico feliz por um ter sobrevivido. Ficaria ainda mais se tivessem sobrevivido os sete! Sobreviver a um acidente não faz de ninguém imediatamente culpado pelo mesmo. Respeitando a dor dos que perderam filhos, gostaria de ver respeito pelo que sobrevive e pela sua família.


João Miguel Gouveia fala com Rui Hortelão e a Sábado publica esta entrevista.

"A Sábado chegou mais cedo do que a hora combinada para a entrevista. João Gouveia passeava descontraído o pastor alemão, Kafka, que tantas vezes foi a sua companhia ao longo destes meses. A expressão facial mudou logo que constatou a aproximação. Ainda assim, dirigiu-se ao carro e indicou  o melhor local para estacionar. Escolheu a casa da irmã, onde se recolheu após a tragédia que lhe levou seis amigos e quase o matou a ele, para que a entrevista fosse feita. Estas são as suas primeiras palavras públicas sobre o que aconteceu na madrugada de 15 de Dezembro de 2013 e tudo o que aconteceu a seguir, até ao despacho de arquivamento do Ministério Público.

Qual foi a principal motivação daquele encontro?
Aquele fim-de-semana realiza-se uma vez por ano, com o intuito de preparar os novos representantes de curso para os eventos anuais desenvolvidos pelo COPA. Cada evento envolve cerca de 200 a 300 pessoas, o que requer muita organização e atenção por parte dos intervenientes. Estes são eventos que consideramos muito importantes para a integração dos novos alunos, visto permitir que eles participem em diversas actividades em conjunto.


Já tinha participado num fim-de-semana como este?
Sim, como representante de curso. Enquanto Dux não, porque eu era Dux há pouco tempo.


E os Honoris Dux, é costume participarem?
Sim, o convite é estendido a eles, porque sempre mostraram intenção de ajudar e são pessoas com experiência, que já terminaram a sua vida académica. Neste, foram convidados quatro mas nenhum deles pôde comparecer, como pode ser comprovado pelas mensagens que me enviaram a dizer que não iriam estar presentes. Ao longo da semana, foram desmarcando. Ou seja, o fim-de-semana é planeado a contar com eles, daí as listas de compras para mais do que os sete. Mesmo dos representantes, que são nove, houve três que não puderam ir porque estavam em fases complicadas de estudo ou a trabalhar. E, como é óbvio, a nossa vida académica ou laboral tinha prioridade.


E algum dos outros já tinha participado?
A Carina Sanchez “Pocahontas” sim, o ano passado já tinha sido representante de curso e participado.


Onde é que foi realizado esse encontro?
Numa casa em Vila Nova de Mil Fontes.


Serviam para quê, em concreto?
Basicamente, para transmitir experiência. Este fim-de-semana foi planeado muito a meias com ela [Carina Sanchez]. Porque ela tinha o mesmo tempo que eu no COPA. O principal objectivo é, ano lectivo após ano lectivo, pegar naquilo que correu pior e melhorar.


Porque é que o COPA é tão secreto?
O COPA não é secreto, nem nada que se pareça. O COPA nasceu em 2003, com quatro cursos fundadores, que, seguindo um pouco da história, da academia de Coimbra, tentaram criar uma academia, no sentido de todos se regerem pelo mesmo código de praxe, de todos darem aos novos alunos uma integração em conjunto. Por exemplo, eu enquanto representante de curso marcava as actividades com um mês de antecedência, conciliando com todas as turmas para que o maior número de pessoas pudesse estar presente. O COPA tinha essas preocupações. Claro que tínhamos umas linhas a seguir, porque ao contrário do que muita gente pensa – entrar na universidade é copos e festa –, no COPA não era. Mas sim criar momentos bons em conjunto, repletos de espírito académico, claro que com jantares e copos, mas não levar a vida boémia como lema.


Então e as actividades que vimos no vídeo que foi divulgado e nos relatos de testemunhas?
Por exemplo, no vídeo eu nem estava presente. Na tarde de sábado, tinha saído com eles, tínhamos ido a um descampado ali perto. Trajados, porque não tínhamos problemas com isso, apesar de às vezes notarmos que as pessoas estranhavam, mas para nós era normal. Tivemos brincadeiras durante essa tarde. O Tiago, que também era uma pessoa com mais experiência, para saber se os outros estavam com ele, picava-os e aí surgiu o rastejar, que foi ele que provocou. Mas nada de especial. E, como é óbvio, sem pedras atadas aos pés. Não fazia sentido nenhum.


Mas o que é que foram fazer ao descampado?
Nessa tarde, eu ofereci-lhes cartas de antigos representantes dos seus cursos, de madrinhas e padrinhos em jeito de motivação. Quis que eles pensassem que estávamos em brincadeiras, mas o objectivo era entregar¬-lhes essas cartas de motivação, escritas por pessoas que já não trajavam há dois ou três anos mas que sabiam o que era estar ali. Eu tinha andado atrás dessas pessoas para que escrevessem alguma coisa, para eu poder entregar-lhes ali, como forma de motivação e encorajamento.


Todos os presentes receberam cartas?
Sim, pelo menos uma. Alguns receberam mais.


Porque é que o João não estava presente quando o vídeo foi filmado?
Depois de ter entregado as cartas, quando estávamos já a voltar para a casa, eu estava ao telemóvel e uma delas percebeu que tinha perdido um dos rasgões da capa durante a brincadeira do rastejar. Então, eles foram todos ao terreno à procura e encontraram aqueles fornos. Filmaram para se recordarem daquele momento, presumo eu. Não tinha nada de especial.


Quando é que teve conhecimento desse vídeo?
Só quando eles chegaram ao pé de mim e mo mostraram.


Os novos representantes foram, ou era suposto serem, submetidos a testes ou provas?
Nada disso. Nós, em Dezembro, já estamos há alguns meses juntos. Testes nem faziam sentido, porque já nos conhecíamos bem uns aos outros. Acima de tudo, estes encontro anuais serviam para nos unirmos. Por exemplo, a razão pela qual a Pocahontas planeou aquele fim¬-de-semana comigo tem a ver com isso, porque ela também já estava na fase final da sua vida académica. Estávamos ali de passagem, até haver alguém com condições para assumir a função de Dux.


E porque é que havia pessoas que estavam fartas?
A esse nível duvido muito. Essas mensagens, vi algumas na televisão mas, por exemplo, as 26 que dizem que troquei com a Carina não existiram assim. Está provado que eram excertos de SMS de várias pessoas.


Mas não trocou mensagens com Carina Sanchez?
Troquei, mas não aquelas que foram mostradas.


Se estavam juntos, para quê trocar mensagens?
Troquei SMS com ela, mas não aqueles. Eu e ela trocávamos mensagens porque como ela estava a ajudar-me, ia-me dizendo a sua opinião. Mas como precisava de se manter na posição de representante, como os outros, tínhamos de comunicar dessa forma.


E o SMS em que a Joana Barroso escreve: “A ver se sobrevivo. Lol”. Como explica?
Já vi essa mensagem nos registos da operadora e essa mensagem foi enviada a uma amiga cerca de umas semanas antes. Não é daquele fim-de-semana.


Há ainda as mensagens em que a Joana confessa não estar nada bem. Apercebeu-se disso?
Na sexta-feira, nós só chegámos lá muito tarde. Os primeiros a chegar fui eu, a Pocahontas e o Pedro, deviam ser 22h30. Outros só chegaram já depois das 23h. Começámos a jantar pela 1h, todos muito relaxados. Lembro-me de ter reparado que a Joana não estava a comer muito, mas como nos últimos meses ela tinha emagrecido bastante pensei que fosse por já ser muito tarde ou por causa da mania das dietas.


Estavam a beber álcool?
Sim, estávamos a beber vinho, traçado [com gasosa]. Bebemos um, dois copos e ela começa a sentir-se mal, a querer vomitar. Há algumas das mensagens que são da Carina a dizer-me “Temos de ver o que se passa”, “Fá-la comer”, porque descobrimos que nesse dia a Joana apenas tinha comido um iogurte.


Descobriram?
A Carina foi com a Joana à rua para ela apanhar ar e percebeu que estava praticamente em jejum desde manhã. Por isso, antes de entrar mandou-me essas mensagens para que eu pudesse ajudar a pressionar a Joana a comer.


A Lusófona tinha conhecimento do fim-de-semana?
Não.


Porquê?
Não sei. Nos anos todos em que estive no COPA a universidade, que eu saiba, nunca foi informada.


Além de si e das seis vítimas, esteve mais alguém na casa de Alfarim?
Não. A única pessoa que lá foi naquele fim-de-semana foi o namorado da Catarina Soares, o João, no sábado depois da hora do almoço. Ele também pertence ao COPA, é da Comissão de Praxe do curso dela, foi levá-la mas não entrou na casa. Parou o carro do lado de cima da casa, e eu e o Tiago é que saímos de casa para o cumprimentar porque somos amigos dele. Estivemos um pouco à conversa, ele despediu-se de nós e foi-se embora.


Esteve com alguns dos antigos Dux ou Honoris Dux durante o fim-de-semana?
Posso garantir que não estive com nenhum deles. Como já expliquei, eles não puderam ir. Deixei foi de saber o que se passava no COPA por completo. Não soube, por exemplo, das reuniões que dizem ter havido nessa altura.


Houve membros do COPA que falaram disso na TV.
Só vim a saber isso depois, porque na altura estava afastado de tudo. Mas sim, o Fábio [Jerónimo] assumiu, porque era o Honoris Dux mais novo e deu a cara por todos.


De onde é que surgiram então estas informações?
Não faço ideia.


Amigas de Joana Barroso mostraram publicamente mensagens em que ela terá escrito que estaria a ser praxada pelo “mamute e mais outros mamutes”.
São aquelas mensagens que foram enviadas muito antes daquele fim-de-semana. Ela refere-se, provavelmente, a mim e aos outros Honoris Dux, porque normalmente pelo menos alguns deles participam neste tipo de fim-de-semana.


Mário Rui, namorado de Carina Sanchez, revelou que ela lhe enviou um SMS a dizer: “Estou cansada do Dux. Quando sair disto vou para o psicólogo.” Qual foi o problema que teve com ela?
Essa mensagem foi enviada para um Honoris Dux e não foi mostrada a resposta dele, que é qualquer coisa como “lol, precisam um do outro para aguentar isso”. A mensagem é do início de Dezembro e prende-se com o facto de, desde que assumi o cargo de Dux, ter havido uma conversa com a Carina e de ela poder ficar mais uns meses para ajudar, dependendo de como corressem as coisas. Nessa altura, ela estava a acabar o curso, cheia de trabalho, e eu também.


E quando é que se dá o choque?
Não houve choque. Era um misto de emoções, porque andávamos sempre juntos, falávamos muito, sempre a tratar de tudo.


O que o faz ter tanta certeza sobre a verdadeira motivação desse desabafo?
Essa mensagem é banal, como a resposta dele demonstra. Além disso, ela era a pessoa que eu conhecia melhor.


Mas ela escreve que está cansada de si?
Cansada porque dá muito trabalho organizar e planear. Cada um tinha os seus problemas pessoais e, depois, tínhamos ainda tanto para fazer. Era disso que ela estava cansada, ela e eu! Digo-lhe mais: quando essa mensagem foi divulgada, a pessoa que recebeu esse SMS da Carina contactou-me e fez questão de me mostrar a resposta para que eu percebesse que não era nenhuma conspiração. Foi apenas um desabafo de quem tinha muitas coisas para fazer e não sabia já para onde se virar.


Até que ponto se manteve isolado do mundo?
Nunca estive isolado a 100%. Mas, por exemplo, com os Honoris Dux não tive contacto durante vários meses. Propositadamente. Decorria uma investigação e eu sabia perfeitamente que eles não tinham estado lá, assim como eles. E havia um afastamento para garantir que eles se manteriam imparciais, de forma a poderem dar as suas explicações à parte e sem qualquer tipo de influência minha.


O que é que mais o surpreendeu nestes meses?  Houve meses relativamente terríveis. Mas não pelas pessoas que tinham confiança em mim, por alguma coisa eu tinha chegado a Dux. Não cheguei lá por amizades. As coisas ali não funcionam assim. A mim, por exemplo, surpreendeu-me que do COPA, e estamos a falar de 200 ou 300 pessoas, e dessas eu era amigo de muito poucas, ninguém tivesse dito nada de mal sobre mim. Para mais, com tanta devassa que houve na comunicação social. Eu, como Dux, era uma pessoa muito reservada, limitava-me a fazer o meu trabalho. Por isso, o facto de ninguém ter dito nada fez-me pensar. Até porque eu acredito que nós somos aquilo que fazemos, isso define-nos muito. No meio de tanta coisa negativa, isso surpreendeu-me pela positiva.

A seguir às mortes e ao susto, perder o curso foi do mais negativo?
Sim, interrompi o curso. Mas vou acabá-lo, claro!


Durante estes meses, como é que passou os dias?
A maior parte foi com o inquérito, as diligências. Estamos a falar de mais de trinta horas em interrogatório, de duas idas ao Meco para reconstituições, muita coisa.


Onde foi buscar forças para aguentar a pressão?
A eles! Nestes meses, o que mais me deu força foi pensar que por eles eu ia demonstrar que não há nada de mal além do acidente, que já foi horrível. Vou fazer com que as pessoas percebam que eles não são os bichos, os ignorantes, como foram retratados na comunicação social, que os reduzia a paus mandados de alguém. Eram pessoas sérias e responsáveis.


Acompanhou sempre os media?
Houve uma altura em que acompanhei tudo, outra em que desliguei quase por completo. Era demais... Cada vez que via, era pior. Mas sempre disse à minha família: “Eu estou cá, eles não. E eu vou provar o que aconteceu e apagar tudo o que está a ser dito e escrito para denegrir a imagem deles.” Isso para mim foi, sem dúvida, o que mais me custou...


Dedicou-se, então, totalmente ao processo?
Não, além disso, trabalhei a partir de casa e refugiei¬-me muito nisso. Depois, aproveitei para estar com o meu sobrinho, com a minha família.


Trabalhava a fazer o quê?
Comecei um estágio profissional na minha área, engenharia informática.


Do outro lado sabiam que quem estava a trabalhar era o João Miguel Gouveia?
Sim, sabiam.


Quando é que isso aconteceu?
Não sei ao certo. Sei que depois de duas semanas aqui, em casa da minha irmã, fui logo para Campo de Ourique, ia ter com um ou dois grandes amigos meus, fechado no meu núcleo, mas sem estar isolado.


Porque é que não foi aos funerais?
Eu no domingo queria ir à praia, mas fui aconselhado pela psicóloga do INEM a não o fazer, devido ao meu estado de trauma. Nos dias seguintes, em conversa com a minha família, dizia que queria ir aos funerais. Mas também nesse caso, liguei para à psicóloga e ela voltou a sugerir que eu não fosse, pelo trauma, pelo mediatismo que, entretanto, o caso estava a ganhar e pelas ameaças que já existiam contra a minha família.


Ameaças? Logo nessa altura?
Sim, no fim da primeira semana já estávamos a ser ameaçados. Nomeadamente a minha irmã, a quem eu no domingo tinha pedido que ficasse com o meu telemóvel. Foi a forma que encontrámos para tentar ajudar as outras famílias já que eu, além de não me sentir em condições, estava desaconselhado pela psicóloga.


De quem em concreto?
Da parte de um suposto representante das famílias. Depois das ameaças seria de esperar qualquer coisa. Aliás, nessa altura, uma das ameaças feitas à minha irmã foi: que queria falar comigo ou ia para a comunicação social. E eu e a minha família reunimos e decidimos que não era esta a abordagem correcta de comunicação e que nos íamos distanciar desta pessoa.


Acha que isso contribuiu para que passasse de sobrevivente a suspeito?
Não tenho dúvidas. Mas a minha irmã, melhor do que eu, pode falar disso, porque foi ela que contactou com diversas famílias (ver texto no final da entrevista).


É nessa altura que se encontra com Anabela Pereira [mãe de Tiago Campos]?
Quando me senti um pouco mais forte. Depois disso, entra a Polícia Judiciária e a investigação, e a partir desse momento sou aconselhado mesmo a não falar em caso algum até ao fim do inquérito.
Mas, pessoalmente, como é que foi ver-se acusado?
 Claro que dava nervos e irritava. Como podiam estar a contar histórias absurdas sobre o que aconteceu, como é que os pais dos meus amigos diziam “nunca falaram comigo”, quando eu sabia que a minha irmã o tinha feito. 


A dor de perder um filho não pode justificar isso?
Tenho total respeito pela dor de perder os filhos. Não sei o que é isso, sei apenas o que é a dor de perder grandes amigos. E essa já é bastante dolorosa, quanto mais a dor de perder um filho. Mas quando entramos no campo da mentira, há coisas que não consigo compreender. 


Consegue explicar como conseguiu sobreviver?
É muito relativo. Já falei com especialistas, uns disseram que foi por eu ter feito bodyboard, outros consideram que o facto de ter tentado salvar a Pocahontas fez com que a minha cabeça se libertasse do pânico de me salvar a mim. O facto de não ter lutado a partir de certo momento... Eu já estava praticamente a desistir, estava a ver tudo negro... No momento em que eu já tinha desistido, já não via mesmo... De repente, fui puxado pelo mar... Não sei... Não sei... 


Lembra-se de mais alguma coisa?
Sim. Se não tenho encontrado o gorro onde estavam os telemóveis também não tinha sobrevivido. Sai da água a arrastar-me e a vomitar, sem forças nenhumas... Estava a adormecer, desmaiar não sei, quando cheguei ao gorro... tenho a perfeita noção que se não o tivesse encontrado também estaria morto. 


Que telemóveis estavam no gorro?
O meu e o da Catarina.


A posição em que estava no momento da onda terá sido decisiva para a sua sobrevivência?
Isso é muito relativo. Estávamos todos sentados em género de meia-lua, a conversar uns com os outros eu e o Tiago tínhamos acabado de nos levantar. 


Todos trajados?
Sim, e de capa traçada, porque estava frio. Aliás, há também quem defenda que ter conseguido libertar-me da capa foi decisivo. Não sei explicar... Com o turbilhão e com a cabeça, o corpo contra a areia, não sei... 


Já teve de reviver esses momentos várias vezes.
Sem dúvida. E há uma coisa importante: tudo isto que me aconteceu a seguir fez com que eu apontasse todas as minhas forças para isto, para explicar a verdade, fazer-lhes justiça. Durante muito tempo, dia após dia, a minha cabeça acordou a pensar naquilo. Porque eu interrompi o meu luto, não o fiz. Ainda o irei fazer. Houve uma altura em que tinha imensos pesadelos, com cenas de mar a vir do nada, estar em colinas e de repente aparecer-me mar. Imagens deles... Depois, houve uma altura em que comecei a ter recordações boas deles... 


Naquela noite, o luar dava para se verem uns aos outros?
Estava médio. Tínhamos uma visibilidade mínima. Tenho uma imagem de a ver [Carina] mais longe que todos, após termos sido arrastados lá para dentro, tentei puxá-la e após isso levei com uma onda e quando voltei à superfície vi os outros mais perto da areia do que eu, mais longe na altura. Logo a seguir, o mar voltou a puxar-me, comecei a perder as forças, a ver tudo negro... 


No sítio onde estavam sentados nunca se aperceberam do perigo que corriam?
Não, de todo, devido ao desnível. Víamos o mar, não víamos a zona de rebentação. Havia um grande desnível na areia, não sentíamos qualquer perigo. 


Quanto tempo estiveram sentados?
Foi um tempo muito curto, uns minutos. Eu fui o último a sentar-me, e estivemos a conversar um pouco. Só que eu comecei a sentir muito frio, a humidade parecia que estava a entrar-me no corpo. Então levantei-me, e o Tiago também, segundos depois fomos levados pela onda. Foi tudo muito rápido... 


Porque é que se tinham sentado ali?
Sei lá, para conversar, descansar, nada de especial


Acreditou que algum dos outros também fosse encontrado vivo?
Havia qualquer coisa que me dizia que sim. Quando os agentes da Polícia Marítima me foram buscar ao hospital, a minha primeira pergunta, segundo eles, foi: “Já apareceu alguém?” Eu estava em choque, não manifestei qualquer espécie de emoção naquelas primeiras horas. Só caí na real quando cheguei aqui a casa, quando me deitei na cama e comecei a pensar... 


As primeiras 12 horas a seguir à tragédia foram intensas?
Sim, e ainda fizeram pior. 


Porque é que diz isso?
Porque ajudaram a toda esta confusão, com as especulações à volta da casa, da chave, do hospital, etc. 


Na praia, a primeira chamada que fez foi para o 112?
Primeira e última. Os agentes da Polícia Marítima devem ter chegado 20 ou 30 minutos depois. A mim pareceu¬-me mais, claro, estava a vomitar, deitado de lado para não me engasgar, e a tremer da cabeça ao pés. Quando me encontraram, expliquei-lhes que tínhamos sido arrastados e apontei-lhes onde tudo tinha acontecido. Entretanto levaram-me para a carrinha e ligaram o aquecimento no máximo. Passada cerca de meia hora chegou o INEM, levaram-me para a ambulância, tirei a roupa molhada e mediram-me a temperatura, já deitado debaixo de um cobertor térmico, tinha 34 graus. isto quase uma hora depois de ter conseguido sair do mar e de ter estado no aquecimento do carro... Percebi mais tarde, durante a investigação, que a partir dos 32 graus existe o sério risco de os órgãos vitais pararem. Imagine o que é passar por tudo isto e, depois, ver o que vi na televisão... Na prática, andei estes meses todos a explicar porque é que sobrevivi. 


Foi o INEM que o levou para o Garcia d’Orta?
Sim, levaram-me quando eu comecei a estabilizar. Os agentes da Polícia Marítima ficaram com a chave da casa, para o caso de eu precisar de ficar internado, porque o objectivo era arranjar maneira de contactar os familiares. 


O que se recorda desses momentos a seguir?
Lembro-me de estar já no hospital, mas há muita coisa que não me lembro e que só soube durante o inquérito. Troquei da maca do INEM para a do hospital e fiquei à espera do médico. Ele quando chegou, pelo que soube, não tinha lido o relatório, perguntou apenas se me doía alguma coisa. Ao que eu respondi que sim, doíam-me os ombros e o pescoço. Deu-me então um paracetamol e deixou-me ali a dormir um pouco. Quando supostamente uma vitima de pré-afogamento tem que realizar vários exames mesmo já tendo vomitado, poderia ter água nos pulmões . Depois, passadas duas horas, voltou lá para me ver e, como eu já estava a sentir-me melhor, deu-me alta médica. A seguir, pedi à enfermeira para ligar ao agente da Polícia Marítima, de quem eu tinha ficado com o número, para me ir buscar. 


Não falou com nenhum familiar seu?
Não e é fácil explicar. Dei o número da minha mãe ao INEM mas eles não chegaram a ligar-lhe. O que fiz foi mandar-lhe um SMS quando me foi dada alta médica a pedir que me ligasse. E assim foi, eram 7h30 ou assim, quando ela me ligou e eu lhe disse o que tinha acontecido. Ela quis logo avisar a minha irmã, mas eu pedi-lhe que tivesse calma, porque já estava com os agentes da Polícia Marítima. 


E como é que o seu cunhado aparece na casa?
Mais tarde, a minha irmã liga-me e disponibiliza-se para ir ter comigo. Mas como o meu sobrinho ainda é pequeno e me dou com o meu cunhado como com um irmão, foi ele ter comigo. Ela seguiu para junto da minha mãe, para a acalmar.


A que horas é que ele chegou ao pé de si?
Só pelo meio-dia e meia, mais ou menos. 


Porque é que a Polícia Marítima não foi à casa enquanto o João estava no hospital?
Não sei, calculo que por não saberem onde era. Mas isso só eles podem responder. 


E quando entraram, fizeram o quê?
Começámos por procurar nos sacos e nas carteiras documentos de identificação. Conseguimos chegar a familiares de alguns, de outros eu sugeri que eles ligassem para a Universidade Lusófona, porque eles certamente teriam uma base de dados onde pudessem encontrar mais informação. E foi assim que, durante a manhã, fomos tentando chegar aos familiares de todos. 


Não seria mais normal que tivesse ido para casa?
Sim, claro. Só que eles conduziram as coisas assim e eu queria era ajudar. Foi muito doloroso... Imagine o que é mexer nos telemóveis, porque os agentes pediram, para encontrar o contacto de algum pai ou mãe. 


Não pensou que isso poderia ser usado contra si?
No meio daquilo tudo, alguma vez ia pensar numa coisa dessas? Estava a fazer aquilo que o meu coração dizia, que era fazer o máximo que podia. Estava a dar todo o meu apoio aos agentes da Polícia Marítima, porque eles sozinhos não iam conseguir tão cedo contactar as famílias. Por pior que estivesse, o que eu mais queria, naquele momento, era ajudar de alguma maneira. 


E a arrumação da casa? Era preciso fazê-la logo?
O problema foi que a Polícia Marítima queria que eu ficasse com os pertences. Diziam que ou era assim, ou teriam de fazer o inventário e eu teria de ir à GNR assinar o auto, etc. Simplesmente porque não queriam fazer o inventário. O meu cunhado, então, defendeu-me: “O João esteve aqui toda a manhã a ajudar, isso não faz sentido.” Eles insistiram e a solução encontrada foi o meu cunhado ficar com elas para depois as entregar na segunda-feira na universidade. 


Mas limparam a casa toda.
O que o meu cunhado fez foi deitar os bens alimentares já abertos para o lixo e organizar como podia os pertences. A prova de que não se tratou de arrumação nenhuma, foi que deixei lá a colher [do dux]. Não estava a arrumar nada!


Como é que veio para casa?
Com o meu cunhado, de carro. 


Mas houve pertences que foram entregues às famílias logo na praia.
Sim, porque quando estávamos quase a vir embora, houve alguns grandes amigos meus que conseguiram contactar-me e se ofereceram para entregar as coisas. Encontrámo-nos pelo caminho, alguns deles eram ex¬representantes de curso e membros do COPA e ofereceram-se para levar tudo e entregar no dia seguinte. 


E algumas coisas acabaram devolvidas logo no dia.
Sim, apesar de só ter conhecimento indirecto disso. Mas, segundo sei, o que aconteceu foi que o [Rui] Osório, como é Honoris Dux, que falou com esses meus amigos e disponibilizou-se para ser ele a fazer chegar as coisas às famílias. Assim, houve coisas entregues logo no dia, outras no dia a seguir na universidade e outras só mais tarde porque eram de pessoas de fora. 


Para onde foi quando saiu de Alfarim?
Vim para aqui, para casa da minha irmã. Falei um pouco com a minha mãe, a minha irmã e o meu cunhado, e a seguir tirei o pijama do hospital, tomei um comprimido e fui deitar-me no quarto, a tentar descansar. 


Como é que acompanhou as buscas no mar?
Nessa altura, estava sempre a tentar perceber se tinha aparecido alguém. 


E com a esperança que alguém aparecesse?
Sim... é relativo. Queria tanto, mas não tinha a certeza. Queria tanto, mas ao mesmo tempo tinha a consciência que não tinha qualquer poder sobre isso...


Alguém tinha ou teve os pés atados com fita adesiva?
Não, claro que não! 


Como explica que essa informação tenha surgido?
Não faço ideia, não percebi. Só fui tendo conhecimento disso quando a Polícia Judiciária me foi fazendo as perguntas, porque nessa altura já me tinha fartado de seguir o que ia sendo divulgado. Eu próprio, antes disto tudo, havia muita coisa em que eu acreditava quando lia na comunicação social e hoje já não acredito. Mudei a minha perspectiva completamente. Eu e muito mais gente, tenho a certeza. Dou-lhe um exemplo: fui comprar uma Coca¬-Cola e uma revista fotografou-me. A seguir, cortou a fotografia para se ver só a parte de cima do saco e escreveram que eu ia dar uma festa com álcool. 


Como foram os tempos a seguir à tragédia?
A minha vida parou. Houve pessoas que eu fazia questão de que não se aproximassem de mim enquanto tudo isto não estivesse encerrado. Para as proteger. Eu vi pessoas serem envolvidas, sem culpa nenhuma. E isso era o que mais me magoava, ver pessoas que me queriam bem, que se não ajudavam mais era porque eu não deixava, serem envolvidas numa coisa com a qual não tinham nada a ver nem sequer com o COPA. 


O caso ganhou muita projecção devido às praxes.
Sim, é verdade, porque para as pessoas o estarmos trajados é como se estivéssemos em praxe, o que não era o caso. O COPA, há uns anos, começou a insistir muito no que era a postura do trajado, devido à opinião que as pessoas tinham dos trajados. Todos nós sabíamos que se associava os trajados a festas e copos e começámos a tomar medidas para contrariar um pouco essa imagem; por exemplo, pessoas que estivessem em actividades com os caloiros não bebiam. Era proibido beber à frente dos caloiros, etc. O COPA foi revirado de uma ponta à outra. Será que se alguma outra academia fosse virada do avesso ainda estaria de pé? 


Já assistiu ou participou numa praxe violenta?
Não, claro que não! Não havia nada disso no COPA. 


Quando e porque decidiram ir à noite para a praia?
Visto já termos abordado praticamente todos os pontos de trabalho previstos para o fim-de-semana e ainda termos muito tempo livre, conversámos e sugeriram ir passear para conhecer a zona e ir até a praia, esta conversa acontece no fim do jantar de sábado. 


Quer dizer que a ideia não foi sua?
Não, não foi. 


Foi de quem?
Não interessa. É fácil para as pessoas, agora que aquilo aconteceu, dizerem-me: “Devias ter dito que não.” Se eu fosse a martirizar-me com isso, não estava aqui hoje, não estava, ponto.


Alguma vez revelou quem teve a ideia?
Sim, a quem tive de revelar, como é óbvio. 


Continua a ter apoio psicológico?
Sim, continuo a ter acompanhamento médico. 


Partilha das críticas à Lusófona sobre a forma como a instituição geriu o caso?
Desde aquele domingo que a universidade prestou todo o apoio a mim e à minha família. Logo nesse dia recebi chamadas e mensagens do vice-reitor e, no que me diz respeito, até porque continua a acontecer, prestaram sempre todo o apoio psicológico de que necessitei. 


Como é que geriu tudo isto com a sua família?
Tenho uma família muito coesa, e apoiamo-nos uns aos outros, eu tinha a verdade e sabíamos que mais tarde ou mais cedo ela viria ao de cima. 


Sempre teve a certeza de que a investigação ia confirmar o que dizia?
Nem podia ser de outra maneira, é a verdade! 


Mas não houve nada que tivesse sido mais difícil de explicar aos investigadores?
É óbvio que foi complicado, mas apenas pelo facto de ter perdido seis amigos... De ter estado à beira da morte. Foi difícil, muito difícil, reviver tudo isso. Agora, explicar não. Até porque eu não estava ali para fazer prova, estava para contar o que aconteceu. É diferente. Não tinha problemas com nada. Aquele fim-de-semana, está detalhado hora a hora. Contei tudo o que aconteceu.


Apesar da tragédia, tem memórias boas de sábado?
Sim, sem dúvida. Aquele fim-de-semana para nós estava a ser muito positivo. Lembro-me de uma conversa com a Carina em que dissemos: “Isto está a correr como nós queríamos. Estamos a chegar ao ponto que queríamos.” E estávamos ainda mais orgulhosos por estarmos a fazê-lo sozinhos, sem os Honoris Dux. Porque aquele fim-de-semana iria ajudar-nos a fazer as coisas ainda melhor. [O curso de] Design, por exemplo, estava a acabar a missão solidariedade de Natal, já tinha ido às compras e ia distribuir uma quantidade imensa de alimentos. Era uma das actividades do COPA, mas disso nunca ninguém falou. Eu estava, igualmente, a preparar uma grande acção solidária de que eles não sabiam, só lhes contei no sábado.


Se as actividades previstas estavam cumpridas, o que é iriam fazer no domingo? 
Tínhamos planeado falar de mais umas coisas, sobre conceitos académicos, e fazer a leitura do minicódigo de praxe, porque para nós era muito importante que o representante de cada curso fosse a pessoa com maior conhecimento sobre o que fazíamos.

E quando é que estava previsto terminar? 
Domingo a seguir ao almoço.

O que é que daquelas 24 horas e dessas reuniões de trabalho guarda de bom de cada um deles?
Eles eram todos muito diferentes. Éramos uma equipa e o que eu tentava fazer era pegar no melhor de cada um em benefício do grupo. Sei lá... Tínhamos quem fosse um exemplo para toda a academia, tínhamos quem fosse superdivertido, quem tivesse grande atitude, quem lutasse muito pelas coisas. Era um misto, porque eram todos fantásticos à sua maneira... E, claro, guardo muito desse convívio. Lembro-me também de, na sexta-feira, eu, o Pedro e a Pocahontas termos acabado a conversar às tantas da manhã, quando todos os outros já estavam a dormir. Lembro-me de muitas coisas, muitos momentos... Lembro-me de os ter acordado a todos, no sábado, porque a Carina estava quase atrasada para o trabalho e só eu é que tinha posto o despertador.


A Carina Sanchez foi trabalhar nesse dia?
Sim, foi. E ia também no domingo. Tinha um part-time num restaurante.


Mas o fim-de-semana não era de reclusão?
Claro que não! Da mesma forma que foi o Pedro que a foi levar. Não havia qualquer tipo de limitações.


O que é que significavam aqueles objectos? O pinheiro do Tiago, por exemplo, porque é que é levado para a praia àquela hora da noite?
Pedi-lhes que escolhessem um objecto que representasse todos os elementos do curso deles, porque eles eram os representantes de cada curso. Uma coisa simbólica. O Tiago, como era brincalhão, escolheu a árvore que lhe tinham dado no jantar de Natal, ou seja, era o único que tinha dificuldades porque aquilo era uma coisa grande. Houve pessoas, que escolheram pedras, blocos, coisas que eram simbólicas para cada um deles.

E levaram isso tudo para a praia? Porquê?
Tinham essas coisas no traje. A ideia era aquilo andar sempre com eles. O único que era diferente e não cabia no bolso era o pinheiro.


Foi assim que encontrou o gorro com os telemóveis?
Sim, o pinheiro acabou por ser decisivo. Se não tem estado lá, provavelmente não encontraria o gorro e, se calhar, não estava aqui...


Por que razão muitos telemóveis ficaram em casa?
Estamos a falar de iPhones, BlackBerrys, mini-tablets. Eu e a Catarina tínhamos aqueles telemóveis mais velhos e, como não conhecíamos para onde íamos, optámos por levar só aqueles dois.


E porque percorreram 7 km, numa noite tão fria?
Do que percebi depois, a distância que fizemos é bastante menor. Fomos a conversar e nem nos apercebemos. Tínhamos esse hábito, quando íamos aos sítios, de passear e de andar a pé para conhecer.


Houve algum excesso naquela noite?
Não, não houve. Como se viu, o Tiago acusou apenas 0,5 graus de álcool e as drogas, segundo me constou, tinham a ver com o facto de ele ter fumado numa festa anterior onde tinha ido.

Quer dizer que naquela noite ninguém exagerou?
Já lhe disse que não. Aliás, para nós era expressamente proibido o consumo de drogas.

O que é que mais lhe custou durante a investigação?
Houve muitos pontos terríveis, apesar de, relativamente a ser acusado na praça pública, saber que a verdade viria ao de cima mais tarde ou mais cedo! Voltar ao Meco foi das coisas que mais me custou, pois ainda não estava em condições, e mexeu muito comigo! Voltei a ter pesadelos com mais frequência a ter imagens a virem-me à cabeça do mar, do negro... Além disso, aquilo que mais me custou foi ver os meus colegas a serem expostos da maneira que foram pela comunicação social e as insinuações que fizeram sobre eles, não estando eles cá para se defenderem.


“O meu irmão nunca recusou falar com ninguém, pelo contrário”
Catarina Gouveia, irmã do sobrevivente

Quando é que falou, pela primeira vez, com outros familiares?
Antes de mim, o cunhado do João, no domingo, dia 15 de Dezembro, deixou o seu contacto com a Polícia Marítima (PM) para que as famílias o pudessem contactar. Logo nesse dia telefonou o tio do Pedro Tito Negrão. Contactei a mãe do Pedro Negrão e a mãe do Tiago Campos na 2.ª feira, dia 16. Na 3.ª feira, contactei a polícia, solicitando o contacto das famílias para lhes dar uma palavra de apoio em nome do meu irmão.


E ligou-lhes?
Não me foram facultados estes dados mas o comandante responsável pelas buscas ficou com o meu número. Ainda nesse dia, liga-me e passa-me a um representante das famílias: Manuel Carrasqueira (tio do Pedro Negrão). Conversamos, explico o que sei, peço-lhe que diga às restantes famílias que estou disponível e lhes dê o meu contacto.


E o que é que aconteceu depois?
Nos dias que se seguiram, estranhei não ser contactada. Voltei a ligar para a PM, reiterando o meu pedido. Ainda durante a primeira semana, falo várias vezes com mãe do Pedro e com o tio. O cunhado do João também o fez por diversas vezes.


Quando sentiu os primeiros sinais de hostilidade?
O tio do Pedro começou, desde logo, com uma atitude muito inquisitória, assim como a mãe (com quem falei várias vezes por telefone). O que no início encarámos como parte do processo de perda e do desespero. Mas tornou-se impossível a comunicação, quando dias depois da tragédia o sr. Manuel Carrasqueira “exigiu” falar com o João pessoalmente.


O seu irmão encontrou-se com Anabela Pereira. Por que razão não quis falar com outros familiares?
O meu irmão nunca se recusou a falar com ninguém, pelo contrário. E eu deixei isso bem claro com as famílias com quem falei, apenas não estava em condições de o fazer naquele momento.


Voltou a tentar uma aproximação às outras famílias?
Quando a família Soares veio a público dizer que não tinha sido contactada por ninguém, ficámos muito surpreendidos… Questionámo-nos: “será que o ‘representante das famílias’ não fez chegar a nossa mensagem?” Falei com a mãe da Catarina, com a mãe e com o padrasto da Carina, e deixei novamente o meu contacto e tenho a certeza de que chegou a todos.


O que é que foi mais difícil para si?
A especulação, as mentiras diárias, o ataque desumano feito ao meu irmão… A exposição da imagem dele associada a títulos sensacionalistas cruéis e injustos. Agora deixo eu uma pergunta: porque é que os media que foram tão persistentes a passar as histórias inventadas, não dizem a verdade apurada e investigada? Não se sentem responsáveis pelo mal causado a este jovem?"


1 comentário:

Digam de vossa justiça!