28 de fevereiro de 2014

2º Dia de Carnaval


Hoje é o segundo dia de Carnaval. Mais uma vez vão mascarados para a escola. Escolheram outra máscara. A escolha das máscaras trás quase tanta diversão como ir para a escola mascarado. Eles escolhem, experimentam e nós ajudamos a compor a máscara com os respectivos acessórios.
Quando era miúda também gostava de me mascarar e era assim, cada dia vestia uma coisa diferente.
Eles vão pelo mesmo caminho. Espero que se divirtam sempre com o Carnaval mas, mais com as máscaras do que com as bombinhas e outras brincadeiras parvas. As máscaras são divertidas, permitem-lhes encarnar as suas personagens favoritas, estimulam a imaginação. É tão bom podermos ser o que quisermos e no Carnaval podemos. É só escolher!

27 de fevereiro de 2014

O Carnaval das Crianças


Hoje os meus filhos foram para a escola vestidos de super heróis.
O mais novo teve uma experiência de que já não tem memória, já que nos últimos dois anos passou o Carnaval com 40ºC de febre. Felizmente, já deve estar imune à gripe e este ano não nos bateu à porta.
Foi para a escola todo feliz, com a sua roupa de super herói. Tão contente estava que mal chegou à escola desapareceu-me da vista, para se exibir junto aos amigos, também eles de super heróis. Num lado as princesas com os seus vestidos de cetim, do outro lado os heróis com as suas máscaras, espadas e capas.
Nestas idades brincam em separado, rapazes para um lado, meninas para o outro.
Chegaram a casa felizes. Tiveram um dia em cheio. Todo o dia só brincaram, encarnando as suas personagens favoritas. Como é bom ser criança!

Carnaval


O tempo corre. Ainda ontem foi Natal para agora ser outra vez Carnaval.
Tenho de mascarar 3 miúdos. Dois rapazes e uma rapariga.
Hoje tirei todas as máscaras de Carnaval para fora do armário. Já são umas quantas que foram usando nos últimos anos. Ainda tenho uma nova guardada que comprei num super saldo da Disney Store mas acho que ainda é grande e não serve aos rapazes. É um fato de condutor de corridas do Faisca McQueen. Este ano entrei na loja Disney e vi todos os fatos a 50€, excepto este, modelo do ano anterior a 10€. Levei-o comigo para casa! Vamos ver se a mais velha o quer vestir. Apesar de ser um fato de rapaz é bem capaz de querer. Já não gosta de máscaras à princesa há já uns bons anos.
Já se mascarou a menina pirata, à palhaço e a pintora. Vamos lá a ver o que decide este ano.

O Bigode da Merkel

O bigode de Angela Merkel
O estranho caso do bigode da Merkel.

Está a correr mundo esta estranha foto de Angela Merkel e Benjamim Netanyahu.

A sombra do dedo de Netanyahu coloca um sinistro bigode na cara de Angela Merkel, de forma muito parecida com o de Adolf Hitler.

Será coincidência?

26 de fevereiro de 2014

Como relaxar: shiatsu e tui na

Massagem tui na
Não sei se vos acontece o mesmo, mas o cansaço e o stress acumulam-se nas costas e pescoço. Fico cheia de contracturas e dores no pescoço.
Há uns anos descobri as vantagens das massagens de shiatsu e desde aí deixei de ter dores de cabeça e enxaquecas. Já descobri que o ideal era fazer uma massagem por mês mas, por esquecimento (quando não dói), por falta de tempo ou dinheiro, não faço com a regularidade que deveria (ou que o meu corpo exige). Lá vêm as malditas dores nas costas! Fico perra, nem me consigo mexer.
Há umas semana tentei marcar uma massagem de shiatsu noutro sítio, já que o sítio do costume me fica agora muito longe.
Lá fui no dia marcado e tive uma arrelia. Não marcaram na agenda que eu queria uma massagem de shiatsu e não tinham a terapeuta certa disponível. Fiquei super chateada! Tinha já marcado há tanto tempo e faz-me tão bem o shiatsu! Lá me sugeriram uma massagem tui na. Não era o que queria mas resolvi experimentar. O shiatsu é japonês e o tui na chinês. Ambas trabalham com pressão nos pontos de acupunctura, ainda que tenham técnicas diferentes.
Só vos posso dizer que me fez super bem! Levei uma grande tareia. Esta é uma massagem vigorosa que nos pressiona e aperta as contracturas libertando os bloqueios de energia. No dia seguinte ainda estava dorida, não mais do que as dores que tinha antes da massagem. Passados dois dias estava fantástica. Sabia que no estado que estavam as minhas costas não ficariam a 100% logo à primeira e marquei nova massagem para hoje.
O estado das minhas costas hoje nada tinham a ver com o que apresentavam há uma semana. Nem precisei de uma massagem tão violenta como na anterior. Saí de lá como nova e posso dizer-vos que me tornei uma nova fã das massagens tui na. Tomem nota do nome pois pode vir a ser-vos útil.
Massagem tui na


25 de fevereiro de 2014

Tarte de Iogurte

Tarte de Iogurte
Fica pronta em menos de nada.
Rápida, saborosa, esta queijada resolve a questão da sobremesa em menos de nada.

Receita:
  • 1 iogurte natural
  • 2 copos de açúcar;
  • 2 copos de farinha;
  • 4 copos de leite;
  • 4 ovos.
Usa-se o copo do iogurte como medida. Bater todos os ingredientes com a batedeira e levar ao forno (30 a 40 min.) numa tarteira untada com margarina e polvilhada com farinha.
Polvilhar ainda quente com açúcar baunilhado ou raspa de limão.
Tarte de Iogurte
Tarte de Iogurte
Tarte de Iogurte

24 de fevereiro de 2014

Artes mil: vitral

Estivemos assim, a fazer pinturas. É mesmo giro como um pequeno jogo de artes os mantém interessados, concentrados e sossegados durante imenso tempo.

Este tem umas tintas género acrílico que depois de seco forma uma película plástica e transparente que se põe os vidros e fica como um vitral.



Alguém sabe onde posso encontrar mais tintas destas? Tenho de repor o stock e encontrar mais cores que este jogo foi mesmo um dos favoritos, cá de casa!

23 de fevereiro de 2014

Vamos aos croissants do careca?

Anda uma pessoa a tentar portar-se bem toda a semana, a tentar comer saudavelmente, a tentar manter a linha, não demasiado curva, para bastar ouvir um:
- Vamos aos croissants do careca!
Para se render, entregar os pontos, desistir de tudo, trocar todas as graças conseguida por uns minutos de prazer. arre! porque é que o raio dos croissants tinham de ser tão, mas tão bons? Assim, não há boa vontade que lhes resista!


Aproveita-se e deixa-se os miúdos brincar no jardinzito, correm atrás dos pombos (coitados!), dão queque aos pombos, jogam à macaca, fazem novas amizades... Aproveitam para correr muito, já que o mau tempo das últimas semanas os tem mantido demasiado tempo em casa.


E dos croissants não sobra nada!

22 de fevereiro de 2014

Sabes que é sábado quando


... acordas com uma vozinha às 7h da manhã:
- Mamã, é hoje que vais fazer os convites para a minha festa?
Sim, são 7h da manhã de sábado e já me estão a cobrar os convites para a festa de aniversário!

21 de fevereiro de 2014

Conversas lá de casa #1

Diálogos em família. Mãe e filho mais novo.
- O que brincaste hoje na escola?
- Brincámos ao lobo e às galinhas!
- Como é isso?
- O lobo vai a trás das galinhas para as apanhar... e as galinhas fogem.
- E tu foste lobo ou galinha?
- Galinha! Nunca me apanharam!

Promoção: Morangos

Morangos
É só para avisar os interessados que os morangos estão a 1,19€ a embalagem de 500g no Pingo Doce. Fica por 2,38€ o kilo! Um preço muito jeitoso.

20 de fevereiro de 2014

Artistas

Os meus filhos são uns artistas. Verdade que são!
Vejam a instalação que o mais novo fez com as canetas de feltro enquanto o do meio pintava...





O fim da Calçada Portuguesa



Tem dois séculos de história. Agora tem os dias contados. A Câmara Municipal de Lisboa decidiu retirar a calçada portuguesa até 2017.

A calçada é um tormento para que anda de saltos altos (eu!) mas não quero que acabe. É a calçada portuguesa que torna Lisboa uma cidade única, para além da sua luz. O chão brilha, ao contrário do que acontece em todas as outras capitais europeias.
As crianças brincam com a calçada. Ora só se pode pisar o preto, ora só se pode pisar o branco. Eu fazia estes jogos e hoje os meus filhos também fazem. Sem nunca lhes ter ensinado. É inacto. Quem vê um chão com desenhos tem obrigatoriamente que seguir esses desenhos. É a verdadeira interacção diária com a arte que se estende por baixo dos nossos pés!

Por favor, não deixem morrer a calçada portuguesa.
Calçada Portuguesa
O que é a calçada portuguesa?

A calçada portuguesa é o nome de um de revestimento de piso utilizado utilizado na pavimentação de passeios, de espaços públicos e espaços privados, de uma forma geral. Este tipo de passeio é muito utilizado em Portugal e em países colonizados por portugueses.
A calçada portuguesa resulta do calcetamento com pedras de formato irregular, geralmente em calcário branco e negro, que podem ser usadas para formar padrões decorativos pelo contraste entre as pedras de distintas cores. As cores mais tradicionais são o preto e o branco. Os trabalhadores especializados na colocação deste tipo de calçada são denominados mestres calceteiros.
O facto de a rocha mais comum para estabelecer o contraste seja de cor negra, faz com que se confunda a rocha mais utilizada, o calcário negro, com basalto. De facto, existe calcário de várias cores. O basalto apenas é utilizado nas ilhas, onde é abundante, sendo aí os desenhos executados em calcário branco. Quando é basalto, distingue-se pelo tom mate e pela sua maior irregularidade no corte, pois este é muito mais rijo. Simplesmente não é possível executar com o martelo, os detalhes técnicos dos motivos elaborados presentes na calçada lisboeta.
A calçada à portuguesa, tal como o nome indica, é originária de Portugal, tendo surgido tal como a conhecemos em meados do século XIX. Esta é amplamente utilizada no calcetamento das áreas pedonais, em parques, praças, pátios.

19 de fevereiro de 2014

Ucrânia

Bandeira da Ucrânia
O que se está a passar na Ucrânia é tão triste!
Espero sinceramente que consigam resolver a situação e evitar o banho de sangue.

De mãos dadas...

Um dia de sol depois de muitos de chuva.
Calhou no dia em que o mais novo é o meu filho único.
Dia em que o pai leva os mais velhos às actividades extra curriculares e eu vou buscá-lo à escola.
Vamos os dois para casa. Dou-lhe banho, jantamos, só os dois. Encho-o de beijinhos...
Ontem, fomos a pé para casa. Ele tem-me pedido mas a chuva não tem permitido.
Desta vez, o sol fez-lhe a alegria. Deixei o carro em casa e pus-me a caminho. Soube mesmo bem a caminhada. A minha para a escola e depois para casa. A do pequenote, apenas a do regresso.
De mãos dadas, caminhámos, cantámos e divertimo-nos imenso. À noite, houve histórias para contar aos manos!
Obrigada sol pela alegria que nos deste!

Look: Blue Dream Blanco

Sonho com a Primavera, sonho com o sol.
Desejo vestir roupas leves, coloridas.
Hoje está frio mas daqui a um mês é Primavera.
A nova estação pede cor, tons vibrantes. O azul com preto e branco traz uma combinação cheia de energia!


Blue Dream


O que acham desta sugestão?

18 de fevereiro de 2014

Descubra as diferenças

Consegue descobrir as diferenças?
As sandálias Zara SS2013 e as Blanco SS2014.
Sandalia Coral Blanco SS2014
Sandalia Coral Zara SS2013

Sandalia Azul Zara SS2013
Sandalia Azul Blanco SS2014

Algumas diferenças existem, mas são poucas. Qual o vosso modelo preferido? As da Zara ou da Blanco?


Como sobreviver ao frio?

Layering
Este inverno está intenso. Chuva que não para já faz um mês. Hoje finalmente temos um dia de sol. Gelado.

Como sobreviver a estas temperaturas extremas?

Eu detesto frio, tenho um arsenal de dicas e truques para lidar com o que me deixa muito desconfortável.

Duche pela manhã
Activa a circulação, mantém-nos quentes por mais tempo

Camadas de roupa
Os ingleses chamam-lhe layering. Trata-se da sobre posição de camadas de roupa que isolam a nossa pele e nos deixam mais quentes.

Beber chá
Passo o dia de chávena na mão. O chá aquece por fora e por dentro. Desde as mãos às entranhas, tudo fica quente e confortável.

 E vocês, como se protegem do frio?

17 de fevereiro de 2014

Dias intensos

O que se consegue fazer num fim de semana sem chuva é incrível!
Mesmo que não sejam só actividades ao ar livre. A disposição das pessoas melhora. Têm vontade de se encontrar, de estar juntas.
No sábado tivemos um lanche em casa da minha avó, com um primo, mulher e filhos que ainda não conhecia. Ele é filho de um irmão da minha avó, mas da minha idade. Cheguei a ir ao seu casamento, mas nunca tinha conhecido os filhos. Um casal de gémeos da idade do meu filho do meio. Os primos não se conheciam mas fartaram-se de divertir: um de cinco, três de seis e uma de nove anos. Nós pusemos a conversa em dia. Tomámos chá, comemos bolo caseiro, pãezinhos e biscoitos. Tudo uma delícia. Nestas alturas ficamos a pensar porque não nos juntamos mais vezes e deixamos a vida passar...
Domingo foi dia de nos juntarmos em casa da minha sogra. Almoço de família com cunhados, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas. Os primos eram nove. Raramente conseguimos juntá-los todos. Há sempre um que está doente, ou agora mais recentemente, a estudar. Foi o que aconteceu à minha mais velha. Tivemos de voltar para casa mais cedo para estudar para o teste de matemática.
Mas ainda aproveitou. Estar com as primas da mesma idade são sempre momentos muito bem passados. Os mais novos aproveitaram até ao fim. Deixaram-nos no sossego de casa, para chegarem apenas para jantar.
Gosto de fins de semana assim!

Fim de semana de sol

Balanço do fim de semana de sol:
Máquinas de roupa lavadas: quatro!
Boa disposição: muita
Casa arejada, sol a entrar pela casa, pó sacudido.
É a renovação do lar.
Adoro arejar a casa. Adoro sentir o ar seco e limpo a entrar pelas janelas.
Nada melhor para prevenir alergias, poeiras e ácaros.
Os ácaros adoram o ar húmido e parado das nossas casas no inverno. Sempre que posso abro as janelas e deixo renovar o ar.
Logo a seguir fecho tudo muito bem para manter o calor dentro de casa.
E a roupa seca ao sol? Já aqui disse que sou fã de roupa a secar no estendal na varanda. Adoro o cheiro que fica na roupa seca ao ar.
Uma das vantagens de ter um blog, é que ficamos com o registo de muitas coisas. Consegui ver que o último dia de sol, em que consegui lavar e estender roupa ao ar foi a 30 de Janeiro, quando apanhei um dia de sol no meio de uma semana inteira de chuva. Nesse dia senti-me uma aproveitadora, pois estive atenta aos raios de sol e apesar de estar a chover à noite, confiei no Instituto do Mar e da Atmosfera e pus roupa a lavar. Estendi-a pela manhã e quando cheguei estava praticamente seca. Foi só por o estendal na sala e logo estava completamente seca.

16 de fevereiro de 2014

São Valentim

Este ano foi um São Valentim diferente.
Resolvemos trazer os miúdos e fomos ao Happy Hour no Amoreira Plaza. Animação de dança pela EDSAE Escola de Dança e Teatro Musical. Na nossa vida AC (Antes das Crianças) dançávamos. Tínhamos aulas, íamos às animações. Não parávamos. Na gravidez da minha primeira filha, tive uma complicação e fiquei logo de repouso. Terminaram logo as minhas aulas de dança. Depois da primeira criança nascer, era sair do trabalho e voltar para casa. Nunca tive com quem a deixar à noite. Acabaram assim as saídas noturnas, os jantares fora e as idas ao cinema. Houve uma vida AC e outra DC (Depois das Crianças). Não melhor, nem pior. Apenas diferente.

Agora, achámos que chegara a altura de começar a sair com eles. Uma nova experiência para nós e para eles. A animação está agendada para as 19h30, mas na realidade não começou antes das 21h...
Ainda assim dançámos, eles correram, brincaram, pularam e dançaram.
Foi divertido. É uma programa giro para fazer em família. Há muitas crianças e eles rapidamente começam a brincar juntos.

A entrada é livre, fica junto à área da comida no Amoreiras Plaza. Quem quiser pode jantar por ali ou petiscar se tiver fome. Um programa sem dúvida a repetir.

E o vosso São Valentim? Foi romântico, divertido, aborrecido, ou um dia igual aos outros?
Contem-me tudo!

14 de fevereiro de 2014

Miguel Esteves Cardoso e Maria João Pinheiro

Entrevista de Anabela Mota Ribeiro ao casal mais romântico de Portugal, Miguel Esteves Cardoso e Maria João Pinheiro.

O MEC já escreveu que O amor é fodido. Vivia em Lisboa, em sofrimento, à beira de uma síncope. Tinha graça, juventude, hordas de seguidores. Agora está na fase de achar Como é linda a puta da vida (novo livro que colige crónicas dos últimos anos). Este é o tempo da Maria João, da vida em Colares, de achar que nesta puta (que é a vida) cabem os pássaros e os cães que se ouviram durante a entrevista. E o sol que incomodava os seus olhos claros.
Ela sempre foi quem é. Radiosa. Um dia, disse-lhe que ele podia estar calado.  
A história desta entrevista tem um ano.
Eu queria entrevistar o MEC com a Maria João. Se eles não topassem, podia ser só com o MEC (ele falaria da Maria João). Mas com a Maria João é que era. Porque ela é a vida da vida dele. O retrato seria outro.
Então veio o cancro. No cérebro. Depois do da mama. E quando se suspirou de alívio, ele pediu-me que lhes desse tempo para estar.
Tempo para estar era uma coisa que o MEC não se permitia antes da Maria João. E cujo sentido aprendeu.
Passaram umas aves, umas ervas de cheiro, reflexões sobre a escolha, a liberdade, o tempo (tudo com letra maiúscula), os livros que lê, o neto António, as gémeas Sara e Tristana. Passaram muitos dias de um Inverno danado e já fazia sol quando nos encontrámos em Colares, para a entrevista.
Miguel Esteves Cardoso (1955) vive “tão feliz da vida” com Maria João Pinheiro (1968) que não parece ser preciso mais nada. Casaram em 2000. Os dois explicam aos cínicos como é que isso é possível. Falam uma fala deles (além de falarem em português, a língua dos dois, e de o Miguel falar em inglês, a língua da mãe). Como se fosse uma música só deles.
 

A Maria João é para si dream come true [sonho tornado realidade]…
Miguel Esteves Cardoso – É.

… ou é true come dream [realidade tornada sonho]?
É dream come true. Só que eu nunca sonhei que existisse uma pessoa como ela. Não é uma coisa que se consiga sonhar. Uma pessoa só consegue sonhar com aquilo que mais ou menos conhece, com os elementos de imaginação [de que dispõe]. A Maria João é real. É bom ela ser real.

Por isso perguntei se era true come dream.
MEC – Pois. Essa pergunta é boa. Eu sonho com ela, mas é sempre melhor quando acordo. É verdade.

Elabore sobre isso. Para perceber os movimentos, do sonho e da realidade.
MEC – Muitas vezes, quando uma pessoa sonha, ou tem um pesadelo, acorda, e é um alívio estar na nossa cama. Muitas noites, muitas manhãs, acontece-me sonhar..., aqueles sonhos estúpidos ou menos bons. Acordo, e a Maria João está ao meu lado.    

Na canção, os The Platters cantam: “You’re my dream come true, my one and only you”. A variação, o true come dream, faz que se olhe para a realidade com olhos de magia. Mas isso não é imediato.
MEC – Não, não é. Ela tem os olhos mágicos.
Maria João – Tu é que tens os olhos mágicos.
MEC – O amor é isso: é ver que a pessoa que a pessoa quer e gosta é real. É real, é verdadeira, é humana. Passado tanto, tanto tempo... Sempre senti que a conhecia. Mas ela nunca me surpreendeu.

Como assim?
MJ – É porque sou previsível.
MEC – Ela é sempre maravilhosa. Vivia muito desconfiado nos, sei lá, nos primeiros meses e anos. Desconfiava que ela tivesse uma Maria João verdadeira que não fosse assim mágica. Que fosse prática e muito diferente. Que houvesse – há sempre – uma pessoa escondida dentro dela. Mas não. Não há.

Para si, o Miguel começou por ser um dream come true? E foi sempre este Miguel?
MJ – O Miguel é uma pessoa. Uma pessoa maravilhosa. Um tesouro.

Isto está a ficar conversa cor-de-rosa.
MEC – Os casais que se zangam e as pessoas sozinhas vão achar isto muito irritante.
MJ – Ficam furiosas.
MEC – Tornámo-nos no casal Schmoopy do Seinfeld [na série, os dois elementos do casal estão sempre a chamar Schmoopy um ao outro]. O casal ultra-irritante, em que um termina as frases do outro.

Maria João, conte como foi para si.
MJ – Foi conhecer a pessoa mais generosa, perfeita, bondosa. A alma mais pura.
MEC – Devíamos dar mais entrevistas. Eu nunca ouço isto. Estou inchado. Se achavas isso antes, porque é que não disseste?
MJ – Desculpa! [gargalhada]
MEC – Se eu soubesse que era tido em tão alta conta...

Comecemos do princípio. Quando é que o conheceu? Quando é reparou nele? Quando é que o quis?
MEC – Escrevi-lhe uma carta. Uma carta desonesta.
MJ – Eu já o conhecia.
MEC – Uma carta a convidá-la...
MJ – Já o conhecia, não o conhecendo.
MEC – A convidá-la para fazer a locução de uma série de peças radiofónicas do [Samuel] Beckett. Em português. Ela era terapeuta da fala e tinha uma voz óptima.

Como é que era a carta?
MEC – Fiz muitos rascunhos, muitos rascunhos. E não sei quê. Tudo no computador. Depois revi tudo muito cuidadosamente e escrevi a carta à mão.
MJ – A carta era linda.
MEC – Copiei à mão. E se me enganava ia buscar outra folha. Num papel muito impressionante. Um papel americano que mandei fazer de propósito.

Porque é que quis que ela dissesse os textos de Beckett?
MEC – Não, eu queria era conhecê-la. [riso]
MJ – Era um truque.

Costumava vê-la na televisão (Maria João apresentava a meteorologia na SIC)?
MEC – Só na televisão.
MJ – E viste-me uma vez a dançar, não foi?
MEC – Sim. E fiquei como nunca fiquei antes. Fiquei assim toinggg. Parecia extremamente feliz. E eu: “Ah!!” E luminosa. Risonha. Como se fosse um prémio. Sabe?, um prémio. “Aqui está a tua sorte”. Senti uma ausência de dúvida. Eh pá. Só queria que fosse minha.
MJ – Mas não me falou.

Uma ausência de dúvida. Que ela ia ser sua? Que era ela?
MEC – Não. Que era ela que eu queria. Nunca sonhei que pudesse tê-la.

Está a fazer género. Já era “o” MEC. Podia ter todas as mulheres que quisesse.
MJ – Exacto.
MEC – Não. Eu escrevi a carta o melhor que podia escrever. Depois vim a saber que ela também tinha desígnios sobre mim.
MJ – Pois tinha. Uma vez estava a ouvi-lo na televisão e disse: “Eu vou-me casar com ele. Eu tenho de me casar com ele”. Não fiz nada para me casar com ele. Mas casámos.

Era casar. Não era namorar ou ter um caso.
MJ – Não. Eu – princesa – vou casar-me com ele.

Coisa definitiva? Princesa que encontra o seu príncipe?
MJ – Foi mesmo assim!
MEC – É assim todos os dias. É disgusting [nojento].

O pretexto do Beckett...
MEC – Foi o mais crível que encontrei (por ela ser terapeuta da fala e ter boa voz). E porque o Beckett tem-me ajudado muito nestes anos. E é o maior escritor de sempre. Gostei muito de traduzi-lo. Ele ajudou-me a traduzi-lo. Era um projecto interessante, de qualquer maneira.
MJ – Podíamos fazer, ainda.

Tinha escrito ao Beckett e ele tinha respondido.
MEC – Sobre o trabalho. Entretanto sei (estou a ler as cartas dele) que respondia a todas as cartas que recebia. Todas, todas, todas.
MJ – Como Freud. Em 24 horas estavam no correio.
MEC – Já viu? Os grandes, grandes homens, e as grandes, grandes mulheres, a Virginia Woolf, respondiam a todas as cartas.

Vocês respondem a cartas?
MEC – Eu não.
MJ – Infelizmente.
MEC – O Beckett, mesmo quando estava a ficar cego, respondia. A mim respondeu-me muitas vezes. Tenho cartas de todas as moradas para onde ele ia.

Quando respondeu a primeira vez...
MEC – Eu estava na universidade, em Inglaterra. Não estava nada à espera que respondesse.

Como é que era a letra dele?
MEC – Pequenina. Muito incerta. Depois mostro-lhe. Escrevia em cartões onde estava impresso Samuel Beckett, em cima. Muito cordial. A agradecer o interesse no trabalho dele. Atencioso. Muito prático.

A sua letra é como? Como era a letra da carta que mandou à Maria João?
MJ – Bonita. Muito bonita.
MEC – Era uma letra de antes do computador. Nesse tempo escrevia à mão. [mostra a letra no moleskine]

É uma letra muito bem desenhada. Perceptível.
MJ – Esta é uma letra descontraída.
MEC – Quando eu quero, faço mesmo bem.

Retomando a pergunta: jogava com o Beckett, o seu autor mais precioso, como se fosse um amuleto? E ele tinha-lhe respondido, no passado.
MEC – Isso não disse. Não usei isso. Seria um bocado... Também só soube há pouco tempo, há duas ou três horas, que ela tinha guardado a carta.
MJ – Tenho as cartas todas.

À antiga.
MEC – Pensava que ela se tinha esquecido.
MJ – Há muitos bilhetes, muitas coisas que estão espalhadas pela casa. Mas essas cartas estão juntas.

O Miguel tinha um protagonismo social, e sobretudo mediático, diferente do seu (ainda que também aparecesse na televisão). Como é que olhava para ele? Uma coisa é idolatrar uma pessoa, que tem muita graça, que é um génio, que revolucionou o uso da língua portuguesa – todas as coisas que se dizem do MEC. Outra coisa é ser o true de que falávamos no começo da entrevista. Ser uma pessoa de verdade.
MJ – Eu achava-lhe muita graça como escritor. Mas desde o primeiro momento estive com ele como se está com uma pessoa. Nunca como ídolo.

Ele não teve de descer do pedestal?
MEC – Ela nunca teve medo nenhum de mim. Ou respeito ou coisa assim. Nunca pensou: “Se calhar estou a dizer asneiras”.
MJ – Nunca. Eu vejo a alma dele.

Nessa altura, o Miguel ainda achava que a inteligência, a graça espirituosa, eram os atributos mais atraentes numa pessoa?
MJ – Quando me encontrou? Já tinha desistido [disso].

Tem fama de ser sobredotado. É interessante perceber o que é que uma pessoa tão inteligente procura nos outros.
MJ – O que é que ele viu em mim?

Pode também pôr assim.
MEC – É a mulher mais bonita que alguma vez vi. Era linda de morrer e podia ser uma víbora. Era uma mulher linda, linda, linda, e isso já era suficiente.

Era suficiente?
MEC – É suficiente. É uma beleza bem disposta. Não sei explicar.

Foi o sentido da alegria o que mais aprendeu com a Maria João?
MEC – Não é uma beleza frígida ou distante. Ou fechada. Não é uma beleza indesejada. É vaidosa. É uma beleza que sabe que é bonita.
MJ – Achas?
MEC – Acho. E isso combinado com ser uma giraça. (Já não se usa esta palavra.) Ela enche a vista. Apela a todas as coisas que existem em mim enquanto homem.

Não respondeu à questão da inteligência.
MEC – Fiquei muito surpreendido quando vi que ela era muito inteligente. Não é justo, mas ela tem um sentido de humor fabuloso, terrível, até, mais perverso do que o meu.
Tenho de prestar atenção. Ela gosta de ser cortejada. Se sente que não é... Aí é que vem a fera. Aí é facas.

O que é que achava que ele via em si?
MJ – Amor. Amor. Era a coisa que lhe faltava e que ele encontrou em mim, e eu nele.
MEC – Foi amor desde o princípio. Amor e encantamento. É muito, muito fun [divertido], isto. O tempo era sempre pouco, como é pouco ainda. Não temos tempo, embora estejamos quase sempre juntos.

Como é que não sentem fastio? – perguntam-se certos casais, neste momento de língua de fora.
MEC – Não sei. Há casais que se fartam um do outro. Mas se calhar, esses, nunca gostaram um do outro. Nós mantemos a fasquia... (Eh pá, este termo é horrível. Nunca o usei na minha vida.
MJ – Não uses.)
MEC – Nós, à mínima coisa, ou se ela estiver a olhar para outra coisa, fico cheio de ciúmes. Faço uma cena. Também é preciso ter atenção a qualquer desvio ou decadência. Dizemos muito: “Tu dantes rias-te mais comigo. Tu dantes perguntavas mais o que é que eu pensava. Tu dantes falavas mais de ti”. Todos os dias temos isto. Todos os dias há coisas de ciúme, de comparação com o passado, reconciliações (depois de eu quase ter tido um ataque cardíaco).

É um fiteiro, não é?
MEC – Não, não sou.

Isso do ataque cardíaco não é fita?
MEC – Não. Dói-me mesmo.
MJ – Espero que seja fita.
MEC – Há uma componente de fita, claro.

Têm sempre uma vigilância sobre a relação? Vigilância também não é uma boa palavra.
MEC – Mas é vigilância. [riso] As pessoas vão vomitar quando lerem isto.

Antes que as pessoas vomitem, vamos falar de quem eram antes de se encontrarem. Ficou outra pessoa, Maria João? Quase tudo o que sabemos de si, resulta das crónicas do Miguel. Aparece como musa, e criatura dele.
MEC – Ela não mudou nada.
MJ – Ele também me inspira.

Dê-me coordenadas. O que é que é preciso saber de si?
MJ – Nunca pensei nisso assim. Era eu. Era uma pessoa que gostava de viver e de divertir-se e de aprender.

O que é que foi importante na sua vida? O sítio onde nasceu?, os pais que teve?
MJ – Os pais, a família, os amigos.
MEC – Ela tem uma coisa de azar. Antes das doenças [o cancro], teve outras doenças. E de cada vez que gosta de uma coisa, essa coisa deixa de ser fabricada.
MJ – Desaparece.
MEC – Está sempre à espera do pior.
MJ – Sou o beijo da morte.

“Sou o beijo da morte” parece um título de Nelson Rodrigues. Que já me ocorreu há pouco. Outro título do escritor brasileiro: “Pouco amor não é amor”.
MEC – É mesmo. Quando as coisas acontecem, ela não está surpreendida. E daí vem o sentido de humor. Um humor muito, muito negro. Eu próprio fico chocado. Há nela uma aceitação, um venha lá, pronto.

Dêem um exemplo. Um pouco de negrume, aqui. Senão isto fica muito cor-de-rosa.
MEC – Mas o cor-de-rosa também é uma cor. [Esse humor negro] é sempre uma coisa do momento. Ela não se reprime. É uma pessoa muito liberta, até pelas circunstâncias da sua vida. De ter sido pequenina, mais nova do que as irmãs. Muito criativa. De ter brincado sozinha. Com a autorização dos pais, via os filmes todos que queria. Uma grande liberdade. E por isso diz tudo. É desconcertante.

Sempre teve confiança em si? Falemos das coisas que importam.
MJ – É mais uma liberdade, e depois logo se vê, do que uma grande confiança em mim. Também tenho inseguranças.
MEC – Acho que não. Que não tens muitas inseguranças.
MJ – Achas? Está bem.
MEC – Ela queria ser ainda mais... Não sei. Ainda mais ela. É aquela coisa narcísica.
MJ – Qual?
MEC – Aquela: tu gostavas de ser ainda mais tu.
MJ – Mas eu sou eu.
MEC – Gostavas de ser ainda mais um bocadinho.

Expliquem lá isso.
MJ – Ele está a dizer que eu gosto de quem sou e que queria ser ainda mais eu. Também não temos muita escolha, não é? Temos de ser nós.
MEC – Eu não era eu. Ela ensinou-me isso. Ensinou-me muito bem a estar à vontade. Eu estava sempre a fingir que era outra coisa que não era. Estava sempre muito ansioso. Muito show off. A tentar disfarçar. Sempre muito mal alaise [pouco à vontade, inadequado]. Sempre a querer fazer graças ou a ser o palhaço da turma. Divertir as pessoas à força. Uma coisa desesperada para que gostassem de mim. Era um trabalho. Detestava.

O trabalho era...?
MEC – O trabalho de ser simpático, de divertir as pessoas. Tenho isso desde pequenino. É uma insegurança: não pensar que as pessoas podem gostar de mim só por eu ser eu. Que posso estar calado. Ela disse-me. “Podes estar calado. Não precisas de estar sempre a não sei quantos.”
MJ – Disse-lhe: “Podes descansar”.
MEC – Descansei muito. Descansei. E as pessoas não deixaram de gostar de mim. Grande lição.

Quando falou do percurso da Maria João, falou do sentido da liberdade. Que nela pareceu fácil. Mas que não é fácil.
MEC – Pois não.

O Miguel, parecendo ter todas as condições para ter essa liberdade, não a tinha.
MEC – Era totalmente reprimido. Muito reprimido. Muito inseguro. E muito falso. É a palavra.

Estava sempre a ser “o MEC”? A ser o boneco.
MJ – Ele exige muito dele próprio. [Divertir os outros], fá-lo mais por bondade, até.
MEC – Agora não faço. Agora é muito melhor. A minha mãe sempre me disse que não me importasse com o que os outros pensavam. “Who cares?” [Que importa?] Mas nunca aprendi o que a minha mãe dizia.

O que é que dizia o seu pai, que era português?
MEC – O meu pai dizia a mesma coisa. Que não éramos obrigados a gostar uns dos outros. Nem dos irmãos nem dos pais. Tínhamos o direito de formar uma opinião, ou de gostar, ou de não gostar. Podíamos não gostar da nossa mãe ou do nosso pai. Ele também não gostava do pai dele. A minha mãe também não gostava do pai dela. Isso era a liberdade de gostar. Nós só tínhamos que estar com as pessoas de quem gostávamos e conversar com as pessoas com quem queríamos conversar. O meu pai fugia das pessoas de quem não gostava. Fugia mesmo, fisicamente. Saía da sala.
Eu, não sei porquê, não sei se foi do colégio inglês ou de qualquer merda, quando comecei a ficar popular, e a fazer desenhos, como era muito bom aluno, compensava sendo desobediente, fazendo troça. Não sei se foi isso que me deu um gosto pelo poder. E uma maneira de os outros miúdos gostarem de mim.
MJ – Para não te marginalizarem por seres tão bom aluno.
MEC – Diziam-me: “Faz lá...”. E eu fazia. E imitava os professores. Depois vim a saber que a Maria João também fazia isso.
MJ – Só que o fazia sozinha.
MEC – Faz caricaturas, expressões perfeitas, desenhos. Como eu fazia. Essa necessidade [de agradar, de ter graça], era uma coisa que me incomodava. Ficava cansado.
MJ – Exausto.

Sentiu-se amado quando era pequeno?
MEC – Amado? Sim. Muito amado.

Tinha uma grande ideia de si mesmo?
MEC – Então não? Estava convencidíssimo. Percebi muito cedo. Uma pessoa tem uma grande ideia de si mesmo aos três, quatro anos, quando começa a ver o que se divertem os adultos. “Isto funciona!”. Dizer aos quatro anos: “Vou ser isto, vou ser aquilo”, e as pessoas ficavam encantadas.

O que é que dizia?
MEC – “Vou ser um grande escritor”.
MJ – Com quatro anos, disse à mãe que não ia ter tempo.
MEC – Não foi aos quatro.
MJ – A tua mãe diz que foi. “Nunca vou ter tempo para fazer o que tenho que fazer”.
MEC – Também disse: “Jamais serei um membro do público”. Nunca. Isso com três ou quatro anos. “A member of the public”.

Ou seja, não estar na audiência. Quis estar em cima do palco, e não a ver da plateia.
MEC – Sim. Não ver televisão, mas sim aparecer na televisão.

Gostava da sua mãe e do seu pai?
MEC – Hum. O meu pai. O meu pai já morreu. Se gostava muito do meu pai? Muito. Claro.

Muito? Claro? Acabou de dizer que o seu pai e a sua mãe não gostavam dos pais que tinham.
MEC – Amava muito o meu pai. Amava-o. Mas ele mostrava-se  inteiro. Não escondia. Conheci o meu pai, conhecemos todos, inteiramente. As coisas más e as coisas boas. Porque ele fazia-as todas à nossa frente. Os exageros. Os ciúmes paranóicos da minha mãe. As grandes melancolias.

Sem ciúme não há amor, dizia o Nelson.
MEC – E é verdade. Portanto eu amo o meu pai como quem ama uma pessoa que conhece bem. Ele tinha coisas nada boas. A minha mãe também tem coisas nada boas. Eu também. Toda a gente tem coisas nada boas. E isso é que é o amor. Eu não idolatro. O meu pai, se calhar, empurrou-me demasiado, quando eu era pequenino. Conforme as notas. Se não tivéssemos 20, ficava chateado. Já o pai dele tinha feito o mesmo com ele.

O que é que fazia o seu pai?
MEC – Era arquitecto naval, mas trabalhava nas pescas. Ele também foi o melhor aluno e não sei o quê. O irmão dele... Pronto. Não interessa. O que interessa é que são pessoasoverachievers [vencedoras em tudo]. A minha mãe levava-me livros aos quadradinhos colados debaixo do tabuleiro, quando eu estava a estudar. [riso] Estava sempre a dizer assim: “You’re going to destroyed this child” [Vais destruir esta criança]. E o meu pai a explicar-me química. Até às duas da manhã, três da manhã.

E queria lá saber da química...
MEC – Ficava apaixonado. Ao princípio chorava, porque não percebia.
MJ – Ele interessa-se por tudo. Se de repente pensar que vai estudar o ar condicionado, estuda-o completamente.
MEC – Ou sobre esgotos. Li agora um livro sobre esgotos. Começo a perceber que as cerâmicas são porosas...

Interessa-lhe apreender o funcionamento da máquina, qualquer máquina?
MEC – Tudo é interessante. Toda a gente é interessante. Tudo é interessante saber. Há paixão em tudo.

Sentiu que era educado para ser overachiever?
Sim. Sempre no over, sim. O meu pai também era muito exagerado. Muito exagerado. A Maria João ensinou-me a pensar sobre mim. Eu nunca pensava sobre mim próprio. Achava que era uma perda de tempo.

Nem uma psicanálisezinha de trazer por casa?
MEC – Eu queria ser psicanalista quando tinha 11 anos. Ela [aponta para Maria João] é da psicanálise. Eu li a Psicopatologia da Vida Quotidiana [de Freud], em português, quando tinha 12 anos. Apanhei uma pancada de Freud aos 13, 14, 15. Depois reprimi o desejo de ser psicanalista.
MJ – Achou que a Filosofia era incompatível.
MEC – A Filosofia é sobre as coisas todas e toda a gente. Eu queria saber coisas que eram verdade para toda a gente. E desinteressei-me do indivíduo.
MJ – Depois voltaste.
MEC – Voltei um bocadinho, agora, quando ela começou a psicanálise e os seminários de psicanálise. Voltei a ler Freud. A maneira efervescente como escreve, o bem que escreve... Reapaixonei-me pelo Freud, pela psicanálise, por casos. Os livros do Adam Phillips, do Stephen Grousz...
MJ – Tenho-os aqui.
MEC – Você também é mais da psicanálise, não é?

O que interessa: partiu do indivíduo para o colectivo para agora afunilar novamente no sujeito individual. Isto depois da Filosofia Política, em que se doutorou. Mesmo quando lia Freud na adolescência, não era para olhar para si próprio. Era para saber. Só agora é uma coisa mais introspectiva?
MEC – Sim. Só agora. Porque quando uma pessoa vive com outra, a outra faz reparos.
MJ – Faz com que tu te ouças.
MEC – Basta a Maria João dizer: “Estás a ouvir-te a ti próprio?”. Ajuda muito.
MJ – Fazemos os dois isto.
MEC – Sim, ela também tem umas pancadas.

O amor pode ser ainda mais pancada que a psicanálise. No caso da Maria João, é um dois em um: um amor e uma psicanálise.
MEC – [riso] Um amor e uma psicanálise é bom.

Quer contar um bocadinho da sua história?
MJ – [em surdina] A minha história não tem interesse nenhum.

Todas as histórias têm interesse. E todos os psicólogos recebem pacientes que dizem que as suas histórias não têm interesse nenhum.
MEC – Há um psicanalista português muito bom – não vou dizer o nome –, que diz no livro dele – também não vou dizer qual é – que quando os pacientes dizem que não têm interesse nenhum, têm sempre razão.
MJ – Normalmente, normalmente, o que os pacientes sentem corresponde à verdade. É mais assim.

A sua história não tem interesse nenhum, ou é uma maneira esquiva de dizer que não quer falar dela?
MJ – É que eu já fiz a minha análise. Já disse tudo.

Como foi o seu percurso?
MJ – Primeiro estudei terapia da fala e depois Psicologia.
MEC –  Quis estudar Psicologia e foi três vezes rejeitada.
MJ – Por causa dos testes psicométricos.
MEC – Entrou. Sempre trabalhando como terapeuta da fala com crianças com trissomia 21.
MJ – Não. Com várias deficiências.
MEC – A trabalhar muito.
MJ – A ganhar muito mal.
MEC – No ISPA, o curso era muito bom, com muita estatística...
MJ – Era um curso bom. Aprendia-se bastante.
MEC – Acabou. Sempre com o sonho de seguir psicanálise. Está há dois anos a fazer psicanálise quando aparece o cancro.

O cabrão do cancro, como lhe chama nas crónicas.
MEC – O cabrão do cancro. No cérebro.
MJ – [suspiro] Isto não falando do resto. Da mama. De tudo.
MEC – E aí interrompeu. Foi há um ano. Mas passou o primeiro ano do seminário da APPSI [Associação Portuguesa de Psicoterapia Psicanalítica].
MJ – Consegui voltar, tendo faltado aquele tempo em que [baixa o tom de voz] fui operada.
MEC – É um seminário fabuloso. Foi renovado há dois anos e tem agora um fulgor, um entusiasmo gigante. Ela tanto perseverou que está perto do sonho dela, que é ser psicanalista.
MJ – Psicoterapeuta psicanalista.

O que é nos pode dizer do que diz ao psicanalista?
MJ – Posso dizer quase tudo. Agora, ficar aqui a falar de mim, é que não...
MEC – Ao psicanalista, ela diz tudo. Tem de dizer tudo o que lhe passa pela cabeça.

Tem ciúmes do psicanalista?
MEC – Tenho. Tenho, claro. Por aquilo que ele sabe. Mas tenho muita admiração por ele. É mesmo um herói meu. Uma pessoa sábia e generosa. Está a fazer um esforço gigante pela psicanálise verdadeira, freudiana. É o Prof. Frederico Pereira. É da escola francesa; de repente, com 60 anos, começou a ler todos os psicanalistas da escola britânica.
MJ – Tu não sabes o que é que ele leu.
MEC – Está bem. Mas leu. Ele gosta mesmo de ler. Eu já vi livros sublinhados por ele. Uma pessoa vê muito bem quem lê pelos sublinhados que [a outra] deixa. [vira-se para Maria João] Que é que tem? Isto não é uma revelação.

Tem ciúmes de a Maria João ter um interlocutor tão íntimo, é?
MEC – É. Ele faz psicanálise à séria e ela também é uma analisada à séria. Pronto. Uma pessoa tem de lidar com isto. Fez-lhe muito bem, a psicanálise. Não existe isto de estarem duas pessoas sozinhas, uma a ouvir outra, durante 50 minutos. Sem máquinas, sem coisinhas, sem tarefas.

Porque é que não quis fazer?
MEC – Agora, gostava de fazer.

Como é que isso não lhe ocorreu estes anos todos?
MEC – Tinha medo que destruísse a coisa criativa. Aquele medo foleiro. Ou que descobrisse alguma coisa que não queria descobrir.

Achava, por outro lado, que a escrita tinha um lado psicanalítico, catártico?
MEC – Não. Tinha medo. E ter medo é uma forma de ter respeito. Tinha medo, por exemplo, que me pusesse feliz. E que essa felicidade fizesse com que...

Abramos um parêntesis para isto: as pessoas dizem que o velho MEC é que tinha graça.
MEC – Sim, é verdade.

Que esse é que era insubordinado e rebelde. E infeliz (à luz do que está a dizer). Agora fala da abóbora e dos primeiros dias de sol.
MJ – Ele continua a ser rebelde.
MEC – Sou muito, muito menos rebelde. Eu tinha graça porque era muito, muito novo. E há uma altura para ter graça. Também me rio com as coisas que escrevi.

Sentia-se (olhando agora) o ratinho que anda na rodinha, zumba, zumba, zumba, sem parar?
MEC – Nunca senti.  

E aí o objectivo era ser competente, ter graça, animar a plateia.
MEC – Animar a plateia, sim.
MJ – Talvez fosse mais um desejo de corresponder às expectativas, não? Com a coisa da infância.
MEC – Não sei. O Vicente Jorge Silva, que me ajudou imenso, que me ensinou imenso, dizia que não me conseguia ler. Porque eu tinha um tom cabotino. Está muito bem apanhado. Eu era cabotino. Muito look at me [olhem para mim].
MJ – Ora aí está. Eu nunca tive qualquer dificuldade em lê-lo.
MEC – Não é preciso uma pessoa esforçar-se tanto. É a lição.

Vicente Jorge Silva estava a falar de outra coisa – dos textos. A Maria João nunca teve dificuldade em ler a alma do Miguel. A alma aparecia nos textos?
MJ – Aparece em tudo o que ele faz.
MEC – Deus queira, não é?
MJ – Em tudo o que diz, pinta, escreve.

Deixou de ser look at me, e deixou de ser ansioso?
MEC – Era look at me na [relação com a] língua portuguesa. Não sabia escrever. Tive que aprender a escrever português bem. Agora sinto que consigo escrever bem. E que não é preciso – nem consigo – ter essa graça. Não tenho essa coisa de ahahah, de rir de tudo.
MJ – Mas tens imensa graça.
MEC – Agora reparo na graça das coisas.

Sem drogas e sem álcool. Está mais no seu osso, em quem é. E sem precisar de subterfúgios.
MEC – Sim. Mas o álcool nunca me afectou, nunca teve um efeito deprimente ou eufórico sobre mim. Bebia durante o dia, mas não era um bêbedo. Era mais uma companhia.
MJ – Ele tem paz.

Numa crónica recente falava do Serviço Nacional de Saúde. Falou de como ele lhe valeu. Em Inglaterra quando nasceram as suas filhas gémeas. E aqui, quando salvou a Maria João, e antes disso, o salvou a si de morrer.
MEC – Duas vezes. E a segunda vez foi muito caro.

Houve momentos na vossa vida em que o grande demónio esteve à vossa frente. A pergunta que parece banal: o que é que se aprende nessas situações?
MJ – Aprende-se... Diz tu.
MEC – Diz tu.
MJ – Aprende-se a não ficar muito tempo distraído na vida. Distraímo-nos e vivemos como se a vida tivesse um tempo infantil – de não acabar nunca. E não aproveitamos as coisas ao máximo. Às vezes, se não aproveitarmos ao máximo também não interessa.
MEC – Sabemos que vamos ter saudade destes tempos aqui. De quando estávamos bem, e nos podíamos mexer, e ficar aqui à conversa.
MJ – [Sabemos que] isto acaba sempre mal.
MEC – Sempre. Acaba na velhice e depois na morte.
MJ – Na melhor das hipóteses.
MEC – Isto é o que se aprende. Era escusado aprender isto. As pessoas dizem que o mais importante é a saúde e que tem de se dar valor a não sei quê. É o que os padres dizem. Demos graça... “What? What the fuck...?” [O quê? Por que raio...?] Demos graça? “Não temos nada. Porque é que havemos de dar graça?”.
E também se aprende a confiar nos médicos, nos enfermeiros, nas assistentes, no sistema. O sistema funciona. Está lá para apoiar. E os outros doentes... Não queira saber. É mesmo surpreendente.

Que papel tinham as crónicas/declarações de amor que o Miguel escrevia para si? 
MJ – Eram muito importantes.

Tinha o país inteiro a torcer.
MEC – O país inteiro... [tom de troça]

Os leitores do Público e não só. Certas crónicas tornaram-se virais nas redes sociais.
MJ – Houve o “Acrescento de Milagre” [corrente pela cura da Maria João do MEC – página no Facebook]. “Nem o amor, nem a sabedoria médica a podem salvar. Só uma conjugação das duas coisas, mais um acrescento de milagre.”
MEC – Foi ultra importante. Animou muito a Maria João. Eu tinha desprezo pelo Facebook e fiquei maravilhado com o efeito daquilo. De pessoas desconhecidas tirarem tempo da vida delas para, sem nada em troca, torcer, torcer. Why?, porquê?
MJ – Ele levava-me o jornal quando eu estava no hospital.

Não lhe lia antes?
MEC – Ela gosta mais de ler antes. Mas eu gosto mais que ela leia no jornal, quando está impresso.
MJ – Ele levava-me o jornal, eu chorava que nem uma Madalena, e pronto.
MEC – Também aprendi que chorar é bom. Quando ela está a chorar...: “Não me interrompas! Estou a chorar”. Nos filmes: “Agora que consegui começar a chorar, não me interrompas”.

A tendência é dizer: “Não chores mais, já passou”.
MJ – Chorar, ou seja o que for que a pessoa precisa de fazer.
MEC – Nos filmes, agora, já choro bem, nas alturas certas.

Já choram de forma sincronizada?
MEC – Quase.

Fale-me mais do pesadelo. Pensa nele? Ou parece que foi há muito tempo?
MJ – Penso nisso, penso.
MEC – Não é só pensar. Tem que se ir lá [IPO].
MJ – Tenho imensas consultas, exames para fazer. Se não pensasse nisso, se não estivesse atenta, estava morta. Há um ano, se não tivesse dado pelos sintomas (quase nada), não tinha ido ao médico. Não percebi que seria uma metástase do cancro no cérebro. Pensei que tinha tido um AVC.

Como é que se aprende a lidar com o medo?
MJ – Não se aprende.
MEC – Com o medo da morte não se aprende nunca a lidar.

Não baixaram os braços. Lutaram.
MEC – Não adianta lutar. Foram os médicos que fizeram tudo, com tecnologia da última década.

Todos os pacientes e médicos dizem que a força psicológica é fundamental.
MEC – Fundamental é a parte médica! Esta semana saiu um estudo gigante, de 20 anos [de pesquisa], que diz que [acreditar] não tem qualquer efeito sobre o desfecho clínico.    
MJ – A psicologia importa, importa. Na fase da quimioterapia ajudou-me imenso. Se não fosse tudo o que é positivo na minha vida, se calhar eu não estava aqui. Se não fosses tu...
MEC – Não é verdade.
MJ – É verdade.
MEC – Não é verdade.
MJ – É verdade.
MEC – Isto é uma coisa clínica.
MJ – Não tinha resistido a muita coisa.
MEC – As pessoas tendem a pensar que o cancro é uma consequência do que comerem ou fizeram – tendem a culpabilizar-se. Mas não têm culpa. Às pessoas que morreram com cancro, o que é que vais dizer? Que não tiveram ajuda? Que não tiveram quem as amasse?
MJ – Não cura. Mas ajuda.
MEC – Li o novo livro do Julian Barnes. As pessoas detestam-no, mas eu gosto muito dele. A mulher morreu em 34 dias com um cancro no cérebro. Os capítulos sobre o luto explicam muito bem tudo.

Antes da Maria João, antes de...
MEC – Não há antes da Maria João. Temos uma regra. Não falamos do antes de. Nada! Eu não sei nada sobre o antes de mim.  

Significa que não se fala de ex-namorados nem de ex-mulheres?
MEC – Nunca! Nunca. Nunca.
MJ – Qual é a finalidade disso? Temos mais que fazer.
MEC – Nem tenho curiosidade alguma.
MJ – Já sabemos o que há para saber.
MEC – Eu não sei nada. E é assim que quero que continue a ser.
MJ – [riso] Não há nada para saber.
MEC – O que eu souber, magoa-me profundamente.
MJ – Mas não há nada para saber.
MEC – Ainda bem. Esta mentira sustem-nos aos dois: não há nada para saber. Acredito nessa mentira. É uma mentira que me convém. Pronto.

O que é que a Maria João acha disto?
MJ – [perdida de riso] Acho que é mentira. Isso que disseste. Tu sabes tudo o que há para saber.
MEC – Eu sei. Não quero é saber mais.
MJ – Não há mais.
MEC – Há os casais que acham que têm de dizer que conheceram não sei quantos. Tive este e tive aquela.

Antes da Maria João, depois da Maria João. O tempo passa a contar de uma maneira diferente. Como na infância conta de uma maneira diferente depois de sentirmos o medo.
MEC e MJ – Sim.
MJ – Há referenciais.
MEC – É muito importante, essa coisa do medo.

Mas eu ia perguntar outra coisa. Estávamos a falar de morte e de desistência. Antes da Maria João, alguma vez teve vontade de desistir?
MEC – Sim, tive. Tive uma vontade de morrer, grande. De suicidar-me. Li sobre o assunto.

Pensou suicidar-se e leu sobre o assunto?
MJ – Claro que ele leria sobre o assunto.
MEC – Não queria magoar-me, nem que me descobrissem, nem não sei o quê. Esse é o lado prático da coisa. Mas depois. Isto é absurdo, mas é verdade. As minhas filhas já tinham nascido. E comecei a escrever uma carta de despedida. Pensei: escrevo primeiro o nome da minha mãe ou das minhas filhas? Fiquei chateado. Parecia que dava uma ordem às pessoas mais amadas. Então decidi fazer um círculo. Ficou uma coisa tão hippie... A sério. Eh pá. E caí na..., why not live [porque não viver]?
Era um círculo ridículo e no cúmulo do ridículo pus os nomes todos à volta. Mesmo assim havia uma hierarquia. Umas posições eram melhores do que outras. Norte, sul... “Porra, não há nenhuma maneira...”. Quis escrever o nome das pessoas de quem gostava. Vi que eram tantas...

O que é que o estava a  fazer desistir? Porque é que estava tão triste?
MEC – Estive dois anos assim. Muito, muito deprimido. Com as janelas todas tapadas de preto. Foi a seguir à morte do meu pai. Não teve nada a ver com a morte do meu pai.

Como é que pôde não ter?
MEC – Uma pessoa aproveita também o luto para sofrer. Uma pessoa começa a sofrer e esse sofrimento abre uma brecha qualquer e vem a depressão que já lá estava. Deve ter sido em 1995. Ainda vivia [no apartamento] das Águas Livres [em Lisboa]. A minha mãe morava ao lado e disse-lhe que só precisava de um garfo, de uma faca, de uma colher. Tirei tudo da casa.
MJ – Quando eu me mudei, ainda havia cortinas pretas.
MEC – Passava os dias a ler. Mas já não era ler normalmente. Era ler o The Economist, o Financial Times (de que não gosto), depois de ler todos os outros jornais e revistas. Lia sobre finanças, o nome dos colaboradores, os anúncios.
Depois fui ao [Alexandre] Castro Caldas. É sempre ele que me salva. Já o vi funcionar com o meu pai, com a minha mãe. Tem um discernimento muito grande. Disse assim. “O que vamos fazer é perder peso. Com o Prozac, tem a vantagem de perder uns quilos.” Eu já sou um bocadinho acelerado. Tomei aquilo. Fiquei brbrbrbrbr, assim eléctrico. E deixei de tomar, ao segundo-dia. Com medo. E depois comecei a ficar bem. E começou a levantar o negrume.

E depois apareceu o anjo Maria João. Estamos a dar, como no título do livro, noComo é linda a puta da vida.
MEC – Foi mesmo isso. Foi nesse ano que conheci a Maria João.

Teve, antes do Miguel, uma depressão funda, um período de pouco amor à vida?
MJ – Não.
MEC – Ela é sobretudo muito bem disposta. Muito, muito bem disposta. Muito, muito boa companhia. As pessoas da minha geração, os meus amigos, a matilha, divertíamo-nos muito. Mas não estava habituado a rir-me com uma rapariga.

Tiveram, durante estes anos, momentos de quase ruptura, em que parece que não há dia de amanhã? Momentos em que já não se suportam nem têm paciência para o outro.
MEC – Nunca passámos por isso. Nem perto.
MJ – A coisa mais perto disso foi pensar que não haveria dia de amanhã porque eu não estaria cá.
MEC – Eu tenho é medo de perdê-la. Que um dia acorde e diga: “Olha, isto foi muito bonito, mas...”.
MJ – Que lata. Eu alguma vez faria uma coisa dessas? Achas?
MEC – Podes fazer. Sempre que ela muda... Ela gosta muito de um pão. Depois detesta esse pão. Então penso: “Ai, ai” [dito num tom grave]. É muito volúvel nas coisas de que gosta.
MJ – Não sou nada. As coisas perdem a qualidade e desaparecem. Ele não perde a qualidade.
MEC – Mesmo com as pessoas: há pessoas de quem gostas muito e depois deixas de gostar. E pessoas de quem não gostas e de quem passas a gostar.
MJ – Posso ficar enfurecida com alguma coisa, zangada, danada. As pessoas normalmente percebem (quando fico).
MEC – Mostra sempre.

Se isto não fosse uma entrevista e não tivessem de responder às minhas perguntas, gostariam de falar de quê?
MEC – Eh. Hum. Nunca fui a um conselheiro matrimonial, mas é engraçado falar de nós e falar da Maria João através de uma terceira pessoa.

Nelson Rodrigues tinha um consultório sentimental (por falar em falar em conselheiro matrimonial). Usava o pseudónimo Myrna.
MEC – Devia ser por causa da Myrna Loy.

O Vinícius de Moraes também chegou a ter. Mas por pouco tempo. Chamava-se Helenice.
MJ – Temos de fazer um!
MEC – Na entrevista, esteve sempre a separar-nos. Ela e ele. ´Pera aí. Para mim é mais: “E vocês?”.  
 MJ – Não é psicótico.

Os conselheiros matrimoniais falam da importância de cada um manter a sua individualidade.
MEC – Ah, mas eu estou dependente. Não tenho a minha individualidade, já.
MJ – Oh, então? Claro que tens.
MEC – Só o bocadinho que é preciso.

Ele é uma espécie de filhinho?
MJ – Não. É uma espécie de marido. [gargalhada]

Às vezes parece um miúdo. E vocês não têm filhos juntos. Olha para ele como uma criança que pede a sua aprovação e amor?
MEC – Não! Era o que faltava. Levava um estalo. [gargalhada]
MJ – Estalo? Violência doméstica?

Voltando à psicanálise. E à infância. E aos papéis que se ocupam.
MJ – Há muitos mimos. Que faltaram. Que não faltaram. Que continuam a fazer falta sempre.
MEC – Achas que me faltaram mimos quando eu era pequenino?
MJ – Não, não.
MEC – Eu era muito mimado. A minha mãe gostava muito de mim. Ainda gosta.

Ela vai ler?
MEC – Vai, de certeza. Ela gosta muito e vai ficar toda contente.
MJ – Ela é muito querida.

Insisto na pergunta. O Miguel responde muitas vezes na vez da Maria João. Não sei se é assim em casa. De que é que lhe apeteceria falar se isto não fosse uma entrevista?
MJ – [silêncio] Não consigo pensar que isto não é uma entrevista.
MEC – Para si, esta é mais uma entrevista. Para nós, é mais um bocadinho. Somos muito fechados. Eu não estou habituado a dar entrevistas. É uma situação estranha, muito curiosa. Uma aventura para nós. Estamos um bocado excitados.
MJ – E eu estou um bocado tímida.
MEC – Com medo de dizer alguma coisa.
MJ – Algum disparate.

Doeu?
MEC – Não.
MJ – [com ironia] Estávamos preparados. Fizemos um treino.
MEC – Não treinámos nada. A verdade vem sempre ao de cima. Fora aquelas duas semanas com os amigos a fazerem de si.

Que perguntas é que esperavam?
MJ – Não esperávamos.

Pronto. Não há cereja em cima do bolo.
MJ – Oh.


Anabela Mota Ribeiro, in Público 2013

13 de fevereiro de 2014

O dia mais romântico do ano


Foi num dia 13 de Fevereiro. Há 14 anos atrás.
Foi nessa noite em que fomos jantar fora.
Estavas estranho. Não largavas o telemóvel.
Nunca gostei de telemóveis. Ainda não gosto. Mas uso. Para telefonar.
E para receber as tuas chamadas. Todos os dias.
Jantávamos de frente para o Tejo, na linda Lisboa que amamos.
De repente ouvi uma música. Baixinho.
Começou a ficar mais alta. Olhei à volta e eles estavam lá.
Os teus amigos e os instrumentos musicais.
Fizeram-me uma serenata.
Uma música linda, harmoniosa.
E aquelas vozes, timbradas.
E tu ofereceste-me o anel.
O meu anel.
Foi há 14 anos.
Dia 13 de Fevereiro que ficámos noivos.
E este é o nosso Dia dos Namorados.

Manhãs de chuva e acidentes

A cada manhã fico estupefacta com a quantidade de acidentes de viação por que passo.
OK. Todos temos pressa de manhã. Todos temos horas para chegar ao trabalho, às escolas dos filhos. Mas o cuidado é sempre pouco. Principalmente nestes dias de chuva em que a visibilidade é reduzida e o piso está mais escorregadio.
Mais vale andar mais devagar, deixar mais espaço entre os carros e fazer tudo para evitar o embate. A pressa em demasia leva a situações de perigo e a choques, embates e capotamentos.

Não é melhor chegar mais tarde uma hora, mas com saúde e sem estragar o carro, do ter um acidente, estragar o carro, arriscar partir alguma perna e ainda ficar 3 horas a resolver o acidente?
E sinceramente não percebo a pressa matinal em ter acidentes. Vejo cada situação que tenho vontade de deitar as mãos à cabeça.
Já fui mais stressada ao volante. Agora percebi que não adiante ir apressada, isso não me faz chegar mais cedo.
Posso abrandar nos sinais de Stop (confesso!) mas tenho imenso cuidado na estrada. Tento ao máximo evitar todas as situações de risco. É quando nos pomos em risco, que podemos ter os azares chatos.

12 de fevereiro de 2014

Suspiro por um raio de sol

A roupa acumula-se.
Todos os dias cresce mais a montanha.
Todos os dias espreito o site do Instituto do Mar e da Atmosfera.
Todos os dias procuro um raio de sol mas nada.
Há muito tempo que não tínhamos um inverno tão rigoroso.
Lembro-me há uns anos, houve um inverno assim.
Choveu tanto que a catástrofe aconteceu.
Caiu a ponte de Entre-os-Rios. Lembram-se?
Foi em 2001. Fez este ano 13 anos.
Espero que o sol prometido para o fim de semana chegue.
Que as tempestades acalmem e a primavera se instale.
Tenho saudades do sol,
Suspiro pelo calor.
Quero voltar a ter uma pele morena.
Estou mesmo branquela.
Os meus pés, perderam a cor.
As minhas mãos estão transparentes.
Valem-me os vernizes para dar cor às mãos.
Sol, volta! Estás perdoado!


A vida corre

Eles crescem, o tempo passa e eu fico de boca aberta a olhar para eles.
A mais velha está no 4º ano, o do meio no primeiro ano. Têm trabalhos de casa, testes para estudar. O mais novo, pela primeira vez na sua vida vê-se sozinho sem ninguém para brincar. Nada normal para um irmão mais novo, de uma família numerosa.
O mais novo é o mais independente, o mais estouvado e também o mais teimoso.
Agora deu-lhe para pedir para estudar.
- Mamã, também quero estudar! Dá-me fichas para fazer!
Lá tive de procurar os livros de fichas que o do meio teve antes de entrar para o primeiro ano. Tenho de lhe dar o livro a ajudá-lo a ler as instruções. Se os irmãos estudam, ele também quer estudar.
Estou estupefacta! Este sempre foi o menos aplicado na escola. Ainda na semana passada tivemos queixas da educadora. Faz os trabalhos à pressa para ir brincar. De uma semana para a outra só pede para "estudar".
Se os irmãos estudam, ele também quer estudar.
E assim a vida passa, eles crescem e eu tento agarrar o tempo que não para.

11 de fevereiro de 2014

Gripe: Proteja-se


Durante o Inverno a actividade gripal aumenta. Por essa razão espera-se aumento de casos de gripe nas próximas semanas.

A Direção-Geral da Saúde sugere algumas medidas de proteção:
  • Lavar as mãos muitas vezes, com água e sabão, principalmente depois de se assoar, espirrar ou tossir;
  • Tapar o nariz e a boca, quando espirrar e tossir, com um lenço de papel ou com o braço e nunca com as mãos. O lenço de papel deve ser deitado no lixo ou sanita;
  • Evitar tocar nos olhos, nariz e boca sem ter lavado as mãos;
  • Evitar o contacto próximo com pessoas com gripe;
  • Se estiver doente assegurar distância em relação a outros para não transmitir a gripe;
  • Se possível, ficar em casa quando estiver com gripe;
  • Limpar frequentemente objetos e superfícies que possam estar contaminados (maçanetas de portas, corrimãos, telefones e computadores, por exemplo);
  • Dormir bem, praticar atividade física, reduzir o stress, beber muitos líquidos e ter uma alimentação equilibrada;
  • Se estiver doente consulte o médico ou ligue para 808 24 24 24 (Linha Saúde 24).

Parar vs Abrandar


Por vezes não paro nos sinais de Stop, confesso.
Algumas vezes abrando, olho e se verifico que não há perigo, avanço.
Sempre que abrando num sinal de Stop, lembro-me daquela anedota:

O homem abrandou no sinal de Stop, o polícia viu e mandou-o parar.
O homem argumenta que abrandar é o mesmo que parar.
O polícia resolve dar-lhe uma lição. Leva-o para a esquadra e dá-lhe com o cassetete.
O homem grita:
- Pare! Pare!
O polícia pergunta-lhe:
- Tem a certeza que quer que pare, ou prefere que abrande?

E vocês, param ou abrandam no Stop?
Lembrem-se disto!




10 de fevereiro de 2014

O estilo da Sónia Tavares

Sónia Tavares, Capa Revista Activa
Os The Gift mostraram a sua grande voz. Forte e poderosa. A imagem cuidada que inicialmente tinha a assinatura dos estilistas Storytailors.

Foi no entanto o Factor X que trouxe Sónia Tavares novamente para a ribalta, admirada pelo seu estilo cuidado de pin up dos anos 50.

Ganhou uma fabulosa capa da Revista Activa. Semana após semana apresentou-nos looks sexys, femininos e poderosos, com penteados muito elaborados.

Eu arriscaria dizer que Sónia Tavares conseguiu ofuscar a beleza de Bárbara Guimarães
A formas voluptuosas da Sónia saíram beneficiadas com os cortes cintados, saias rodadas, os corpetes ajustados. 

No estilo da Sónia, só não copiava as tatuagens, em tudo o resto acho-a fabulosa!

Sónia Tavares

Sónia Tavares

Sónia Tavares


Sónia Tavares


Sónia Tavares


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Sónia Tavares

Sónia Tavares

Sónia Tavares

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Sónia Tavares
Sónia Tavares






Depois da tempestade... o sol


Depois de uma tarde de vento e chuva, em que nos entrou água pelas janelas mais fustigadas pelas rajadas, as viradas a Oeste, depois de uma noite assustadora para os miúdos que não conseguiam adormecer com o barulho do vento nos seus arremessos contra a janela do quarto, depois de tudo isso acordamos com um dia de sol radioso.
Como se os acontecimentos do dia anterior tivessem sido apenas um sonho, um pesadelo dos muito maus, mas distante.
O sol cura, não há dúvida. Parece impossível que algo de mau possa ter ontem acontecido, quando acordamos com um brilho de sol tão intenso.

9 de fevereiro de 2014

Final Factor X

Berg, Factor X
Pois estou entre ouvir o temporal e na expectativa para o inicio da final do Factor X. Nunca tinha acontecido, mas os 3 finalistas são precisamente os meus 3 favoritos.

Quando ouvi a Mariana, a menina de 16 anos dos Açores fiquei de boca aberta. Não parecia possível que uma menina tivesse uma voz tão poderosa, de um timbre tão bonito e sempre tão afinada.

Tinha uma imagem fraquinha, imagem de adolescente despenteada. Nada que a produção do Factor X não tivesse alterado. Semana a semana assistimos a uma Mariana mais bonita, mais produzida e com um produto final mais apetecível.

A segunda voz que me surpreendeu foi a do Berg. Uma voz aveludada, terna e amadurecida. Já tinha a imagem certa, a irreverência de quem entra em palco. O seu guarda roupa foi também evoluindo, mas dentro do seu próprio estilo.

O terceiro acontecimento foi conhecer o D8. O jovem Diogo que escreve todas as suas letras e semana a semana nos tem surpreendido com canções fortes, incisivas e de enorme intervenção. Não sendo a maior fã do seu tipo de música, graças ao D8 foi gradualmente conquistada. Se música não é de grande harmonia, compensa em força e em intensidade. A estrela é a letra, os poemas de intervenção que o D8 consegue produzir, ensaiar e interpretar ao ritmo de duas por semana.

Quem irá ganhar?
Neste momento não faço ideia. Qualquer um deles merece ganhar e a derrota será injusta para os outros dois. Ficarei feliz por um e triste pelos outros dois. Os três merecem ser editados.

D8, Factor X

Mariana, Factor X


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